Cumprir a rotina de estudos em casa para fazer as lições sem dar uma conferida nos aplicativos de mensagem e de redes sociais é, certamente, um desafio cada vez maior para os estudantes de hoje. No entanto, para os alunos dos 8º e 9º anos da Escola Estadual Efigênia de Barros Oliveira, em Barão de Cocais, no Território Metropolitano de Minas Gerais, acontece o contrário: pelo menos para estudar Língua Portuguesa, eles são incentivados a usar cada vez mais o smartphone.
O projeto “Eu sou o escritor do Whatsapp”, idealizado pela professora Regina Nogueira de Freitas e pela especialista Aline Zanetti, incentiva o aprendizado por meio do famoso aplicativo de mensagens com o objetivo de promover maior interação entre os estudantes e também despertar o interesse pelo conteúdo ensinado.
De acordo com a especialista Aline, a primeira etapa do projeto consistiu na apresentação de diversos gêneros textuais aos alunos, que fizeram uma discussão sobre o que já sabiam sobre o conteúdo e sobre as possíveis dúvidas. “Já com os conceitos bem claros, por meio do debate e de análise de textos envolvendo situações-problema, os alunos produziram textos ou trechos argumentativos para desenvolver sua capacidade de crítica e escreveram o conteúdo usando seus telefones celulares”, explicou Aline.
Ela garante que os alunos continuaram a escrever textos manuscritos, mas defende a inserção da tecnologia no aprendizado para fomentar o processo de ensino e aprendizagem em suas múltiplas linguagens. “Ao ficar somente no texto impresso, há a tendência para uma análise voltada somente a textos verbais. Já a internet propicia a intensificação no uso de hipertextos e textos multimodais, com diversos recursos audiovisuais integrados a eles”, disse a especialista.
A segunda etapa foi a criação de dois grupos no WhatsApp, um para cada turma do 8º e 9º anos, que têm como administradoras a professora Regina e Aline. Por meio dele, as educadoras enviam materiais complementares e arquivos multimídia para incrementar o aprendizado, além de promover debates para estimular a participação dos alunos.
“Este é um aplicativo com o qual os adolescentes já estão familiarizados, porque fazem uso dele constantemente. Sem contar que ele permite a comunicação instantânea, envio de textos sem limite de caracteres, além de vídeos, fotos e áudios. Conseguimos, por meio do WhatsApp, propiciar um espaço para exposição de opiniões e discussão de diversos temas sem perder de vista as técnicas aprendidas em sala de aula”, explicou a professora Regina.
Para os alunos que não possuem smartphones ou têm aparelhos que não suportam o aplicativo, a escola sugere que eles façam acompanhamento com os colegas ou familiares. “Ninguém fica sem ter acesso ao conteúdo que é enviado ao grupo”, garantiu Aline.
A intenção da gestão escolar é expandir o projeto para todas as salas de aula da Escola Estadual Efigênia de Barros Oliveira.
Método é tema de pesquisa na UFMG
As educadoras desenvolveram o projeto “Eu sou o escritor do Whatsapp” mesmo sem saber que já acontecia uma pesquisa na Universidade Federal de Minas Gerais sobre o assunto: o jornalista e professor Christian Catão escolheu como tema da sua tese de mestrado na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) o uso do mesmo aplicativo no processo de ensino e aprendizagem de português fora da sala de aula.
Segundo Christian, a ideia surgiu quando ele, que leciona Língua Portuguesa para adolescentes do Ensino Médio, percebeu que os estudantes não despertavam interesse pelo conteúdo das aulas de gramática. “A partir do momento que eu vi que a aula estava monótona, resolvi usar o aplicativo justamente para que os alunos fossem mais estimulados. Criei um grupo e comecei a postar vídeos, tirar dúvidas, promover debates, enviar materiais, e percebi que o uso dessa tecnologia passou a deixar o processo de aprendizado mais interessante, principalmente porque é um suporte comum à rotina dos jovens”, disse.
O professor reforça que os livros didáticos são importantes, sim, mas que as chamadas TICs – Tecnológicas da Informação e da Comunicação – são importantes aliadas para complementar o conteúdo que é ensinado em sala de aula. “Gosto de frisar que usar esses recursos tecnológicos pode, inclusive, ampliar o potencial que existe em todo o sistema educacional. Trata-se de um novo processo de ensino e aprendizagem, e acredito que é uma questão de tempo para que as escolas adotem esse uso”, opinou.