Iniciativa integrou a programação da Semana de Educação para a Vida, realizada entre os dias 20 e 25 de novembro, nas escolas estaduais de MG
Depois de muita espera e ansiedade, os estudantes da Escola Estadual Ruth Brandão de Azevedo, em Sete Lagoas, puderam desfrutar de mais uma edição do tradicional Concurso Garota e Garoto Beleza Negra. Uma das atividades que integrou a programação da Semana de Educação para a Vida, o concurso, realizado pelo terceiro ano consecutivo, movimentou toda comunidade escolar e celebrou o Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro. “Buscamos enaltecer a beleza e trabalhar a autoestima dos alunos. Foi um momento divertido e esperado o ano inteiro, inclusive, alguns estudantes inscreveram-se nos últimos minutos antes do desfile. Todas as atividades trataram de conscientizar e debater sobre o preconceito racial na sociedade brasileira”, explica o vice-diretor da instituição, Washington Eloi.
Com trajes que homenageavam a cultura africana, desfilaram estudantes entre 15 e 18 anos do Ensino Médio e da Educação de Jovens e Adultos (EJA). “Além do quesito beleza, foi avaliado, também, o quesito estilo. Todas as candidatas estavam com uma veste única, caracterizadas como africanas em vestimentas de panos coloridos, pinturas no rosto e turbante”, informa o vice-diretor. Os concorrentes também tiveram a oportunidade de discursar e declamar poesias e mensagens sobre o tema da consciência negra.

Washington, que também é professor de Geografia na instituição, destaca a importância da iniciativa para a aprendizagem e educação dos discentes. “Trabalhamos com alunos que moram no bairro mais afastado do município e muitos têm uma autoestima baixa. Então, reconhecemos que o concurso é uma maneira de motivar, de dizer e afirmar aos alunos e alunas que eles são lindos, possuem valor, potencial, espaço como cidadãos e cidadãs em nossa sociedade”, explica.
Apurados os votos da comissão avaliadora, formada por professores, a estudante do 3º ano do Ensino Médio, Jennifer Gonçalves, consagrou-se campeã pela 3ª vez consecutiva. “Foi maravilhoso ter sido escolhida a beleza negra da escola em mais uma edição e poder representar a minha cor”, declara Jennifer, que venceu também em 2015 e 2016. As alunas Vitória Santos e Letícia Dias conquistaram, respectivamente, o 2º e 3º lugares. O estudante Hendrio Eduardo Alves, único representante masculino, tornou-se o Garoto Beleza Negra da Escola Estadual Ruth Brandão de Azevedo.
A tricampeã de beleza negra na escola comenta que já sofreu preconceito racial em muitas situações em sua vida. “Em várias ocasiões isso ocorreu, inclusive, uma delas na própria escola, há alguns anos, no dia da consciência negra, por parte de ex-alunos. Foi horrível, me senti inferior”, revela a jovem, afirmando que enfrenta o preconceito de cabeça erguida. “Sigo em frente, lembro que os preconceituosos têm o mesmo sangue negro que o meu. E, a todos que passaram pela mesma situação, peço que se assumam, resistam, tenham orgulho e não tenham medo, vocês são capazes e a nossa pele faz a gente brilhar”, diz Jenifer, frisando a importância de se debater mais sobre esse assunto nas escolas, para conscientizar os estudantes e tornar o espaço escolar mais democrático e respeitoso.

Ações diversas
Com foco no Dia da Consciência Negra, a escola promoveu, durante a Semana de Educação para a Vida – instituída pela Lei Federal nº 11.988/2009 e realizada entre 20 e 25 de novembro – diversas atividades. “Os professores de todas as áreas passaram filmes que discutem as diferenças, sobre personalidades como Nelson Mandela, palestras antidrogas, sobre profissões e outras que contaram com a participação de escritores da cidade. Na reunião de pais, promovemos um encontro sobre educação dos filhos e sorteio de brindes e de duas cestas básicas”, exemplifica o professor Washington Eloi. Os alunos apresentaram trabalhos que abordaram temáticas diferenciadas – preconceito, cultura, os negros no mercado de trabalho, entre outras.
O debate sobre o preconceito já está presente na rotina da comunidade escolar dos estudantes da Escola Estadual Ruth Brandão de Azevedo, que realizam, ao longo do ano, trabalhos que versam sobre relações étnico-raciais, discriminação de gênero e classe, a questão indígena, entre outros temas. De acordo com a diretora, Carla Borges, a ideia é sensibilizar e fazer todos refletirem sobre suas ações para com os outros. “Queremos promover uma mudança de atitude. Buscamos mostrar que todos nós somos diferentes, que são essas diferenças que tornam as relações ricas e nos permitem ensinarmos e aprendermos uns com os outros”, declara.

Para a diretora, é fundamental garantir aos jovens o protagonismo dentro do espaço escolar para torná-lo, de fato, um ambiente em que todos sintam-se representados. “Eles devem ter voz e vez, serem capazes de identificar, incorporar e realizar os valores positivos construídos ao longo da evolução humana. Na nossa instituição o protagonismo juvenil é posto em prática e é perceptível a mudança de comportamento dos nossos estudantes com relação ao racismo, ao preconceito em geral, pois suas opiniões são ouvidas e levadas em consideração, tendo sempre como base o respeito e a valorização das diferenças”, conclui.
Sob jurisdição da Superintendência Regional de Ensino (SRE) de Sete Lagoas, a Escola Estadual Ruth Brandão de Azevedo coordena 362 alunos, dos três anos do Ensino Médio e da Educação de Jovens e Adultos.
Por William Campos Viegas (ACS/SEE-MG)