“Todo o dia a gente que é negro tem direito a um copo de racismo. Às vezes é uma dose pequena, outras vezes é um copo duplo”. A fala da secretária Macaé Evaristo durante o 11° Forum pela Promoção da Igualdade Racial (FOPPIR), ocorrido em Cataguases (Zona da Mata) na tarde na última sexta-feira (17/11) é emblemática de como a luta contra o racismo e pela igualdade social ainda precisa avançar muito na sociedade brasileira.  
Na abertura do FOPPIR, a acolhida teve música e dança coletiva
 
Ao longo de sua palestra, ela denunciou o racismo institucional e o genocídio da juventude negra, para um público de jovens e adultos, negros e negras, de diversas regiões de Minas Gerais e do país. “Temos medo que nossos filhos sejam assassinados na rua. Sabemos que somos vitimas do racismo institucional que exite em nossa sociedade, que autoriza que as forças de segurança usam de violência contra as crianças negras. Ou que as pessoas mudem de calçada porque tem um jovem negro vindo ali de boné”, destacou Macaé. “O racismo institucional está presente em todas as situações de nossas vidas e perpassa toda a nossa agenda. É ele que permite que grilheiro entre em terras dos povos tradicionais e quilombolas, destruam aquelas comunidades e ameacem as pessoas para que elas possam sair. O racismo institucional autoriza vários homens brancos a querer legislar sobre a vida e sobre o corpo das mulheres. É este mesmo racismo que permite que homens brancos comemorem a redução da maioridade penal quando foi aprovada da Câmara”, ressaltou ela. 
 
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Para a secretária, superar o racismo institucional passa por ocupar os espaços de poder. “Durante muito tempo, as pessoas achavam que o negro só podia se destacar em alguns lugares, no futebol, no pagode. As pessoas não nos veem nos lugares da gestão, na polítca, administrando empresa, dirigindo escolas e unidades de saúde. Valorizar essas pessoas que estão nesses lugares (e também cobrar deles a coerência), é muito importante para superar o racismo institucional”.
 
Políticas de Inclusão 
 
Outro ponto destacado por Macaé diz respeito à política de inclusão. A secretária defendeu superar a ideia de que somente as políticas de inclusão são suficientes para acabar com o racismo institucional. “Durante muito tempo foi difícil a gente colocar o debate da questão negra na agenda da política pública nesse país. Dizia-se que não precisava discutir a questão das relações raciais; bastava-se discutir pobreza. A ideia que se tinha é que se superasse a questão da pobreza, se superaria a questão do racismo e isso não é verdade. Milhares de pessoas saíram da linha da pobreza e o racismo continua”. 
 
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Macaé defendeu as políticas afirmativas, que tem como foco a população negra, que passa por uma pauta para a infância, que será seriamente afetada, segundo ela, pelos cortes de recursos promovidos pelo Governo Federal nas áreas de saúde, assistência social e educação. “Quando esses cortes são feitos, eles miram fortemente nós, a família negra, as mulheres negras, a juventude negra, porque nós estamos na base da pirâmide.” Ela lembrou ainda o papel da mulher negra, que hoje são as mantenedoras das famílias, e que são as primeras a sofrer com o desemprego e o subemprego em momento de cortes sociais. 
 
Violência e Mulheres
 
“Os indicadores de violência com relação às mulheres brancas têm caído a cada ano. Já com relação às mulheres negras, eles vêm subindo. A violência simbólica e física em relação às mulheres negras é assustadora”. Para a secretária Macaé, o feminismo negro precisa estar na ordem do dia, para que não haja retrocessos nas conquistas, tanto na questão da autonomia sobre o corpo da mulher quanto em questões das relações de trabalho. 
 
Criminalização e genocídio
 
Um dos principais desafios enfrentados pela população negra, para Macaé, é o genocídio dos jovens negros. Macaé citou dados alarmantes do Atlas da Violência 2017, entre eles  o fato de que a cada 100 vítimas de homícidios no Brasil, 71 são negras. “Precisamos criar uma rede de proteção entre nós e estar mais pertos dos nossos jovens e adolescentes.  É nesse momento que os jovens precisam de mais afeto, mais proximidade. Precisamos criar uma rede de defesa da nossa juventude, capaz de se indignar e proteger e de criar estratégias políticas e jurídicas de proteção”. 
 
Medo e esperança 
 
Apesar de todos esses desafios, a  secretária de Estado de Educação acredita que há soluções  a partir da organização dos negros e negras. “ Se não nos organizarmos, émuito difícil transformar o estado de coisas que estamos vivendo. Quanto mais nos desinteressarmos da política e de querer estar nesses lugares, melhor para a elite brasileira, para o capitalismo”. Macé retomou a fala de Boaventura de Sousa Santos para conclamar a pessoas a terem esperança, mesmo com as dificuldades. “O medo está colocado para nós, mulheres, jovens e crianças negras.  O Boaventura nos chama para que a gente não abaixe a cabeça. A gente precisa desiquilibrar esta balaçna. Temos que buscar a esperança de volta para nossas mãos.  É preciso enfrentar essas situações. Este espaço aqui é um espaço de esperança. As nossas marchas, caminhadas, celebrações são  formas de vencer esse medo.”
 
Agenda 
 
Entre os dias 17 e 19 de novembro, a secretária de Educação participou de outros momentos de reflexão sobre os desafios enfrentados pela população negra. Os eventos fizeram parte da programação dos "20 Dias de Ativismo contra o Racismo", ação realizada pelo movimento Convergência Negra, em parceria com a Superintendência Regional de Ensino (SRE) de Juiz de Fora, com o Conselho Municipal para Promoção da Igualdade Racial e outros movimentos negros do município.
 
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Acompanhada da superintendente de Modalidades e Temáticas Especiais de Ensino, Iara Vianna, e da assessora Elzelina Doris, a secretária participou de roda de conversa, no dia 17 de novembro, no Conjunto Habitacional Belo Vale, em Juiz de Fora, onde conheceu o trabalho desenvolvido por jovens negras do movimento negro feminista  Candaces com a população da cidade. 
 
No dia 18, Macaé participou, no Colégio de Aplicação João XXII, de encontro onde falou sobre “Consciênica Negra em Tempos de Resistência”, promovida pela Universidade Federal de Juiz de Fora. No domingo, a agenda foi no Museu do Crédito Real, com a roda de conversa “Feminismo negro: na ótica de Ângela Davis”, com a participação das representantes das Modalidades Especiais da SEE e da superintendente da SER de Juiz de Fora, Fernanda  Moura. 
 
Nesta segunda-feira, Dia Nacional da Consciência Negra,  a secretária está na II Caminhada pela Igualdade Racial, no centro de Juiz
de Fora. A caminhada começa na Escola Estadual Fernando Lobo, que recentemente teve o muro pichado com frases racistas, e segue até o centro da cidade. 
 
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