Estudantes de todas as regiões do estado expõem seus sonhos, ideais e propostas para uma Educação que atenda a seus projetos de vida
Uma galera empolgada e preparada para levar a todas as escolas de Minas Gerais um processo de discussão sobre “o ensino médio que queremos”. Foi o resultado dos dois dias (27 e 28/9) do II Encontro Estadual Educação e Juventude, que reuniu estudantes de todas as regiões de Minas Gerais no Canto da Siriema, em Jaboticatubas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Participaram também analistas educacionais das 47 Superintendências Regionais de Ensino (SREs).
O Encontro, promovido pela Diretoria de Juventude da Secretaria de Estado de Educação (SEE), terminou com uma roda de conversa sobre o tema: “Qual Ensino Médio queremos”? Na ocasião, representando a Secretária de Estado de Educação, Macaé Evaristo, a professora e Subsecretária de Desenvolvimento da Educação Básica, Augusta Mendonça, ressaltou a importância que as rodas de conversa aconteçam em todas as escolas do estado, de forma a subsidiar as demandas da juventude que comporão o documento final da Conferência Estadual de Educação, prevista para acontecer em março de 2018. A SEE estará promovendo também rodas de conversa entre educadores e alunos, em todas as SREs, entre 15 de outubro e 15 de novembro, em que os jovens participantes do Encontro serão multiplicadores.

A subsecretária apontou as diversas ações promovidas pela SEE junto aos jovens no sentido que cada vez mais ocupem seus espaços na educação pública e sejam protagonistas da construção de uma escola que atenda aos seus anseios e sonhos. “Organizando as rodas de conversa em suas escolas, a eleição de representantes de turma, os coletivos juvenis, fortalecimento dos grêmios, podemos sentir um forte movimento em Minas nessa direção. Quando ouvimos as vozes da juventude favorecemos o diálogo entre professor e estudante e, nesse sentido, acredito nas mudanças proporcionadas por esse diálogo para que possamos construir uma escola atrativa de qualidade onde o jovem queira ficar”.
Preocupações
A escola, como está constituída, abre espaço para novas práticas? A Educação Integral conflita com os interesses do aluno que precisa trabalhar? Como qualificar um professor que precisa de dois empregos para oferecer uma vida digna a sua família? Como promover uma reforma no Ensino Médio sem uma Base Nacional Comum Curricular (BNCC)? Como oferecer Educação Integral com corte de recursos para a Educação e sem ampliação de espaços físicos de algumas escolas e como manter os custeios de um horário estendido? Teremos conteúdos curriculares excluídos de obrigatoriedade na formação dos jovens? Essas foram algumas entre as preocupações levantadas durante o encontro.
A Superintendente de Desenvolvimento do Ensino Médio da SEE, Cecília Resende, disse que a escola não é um lugar de apenas respostas, mas principalmente de questionamentos. “É preciso muita conversa, muito diálogo e, principalmente, garantir o espaço para que essas vozes sejam postas e ouvidas”, comentou. Cecília apontou a necessidade de um amplo debate sobre o Ensino Médio, para que todos possam compreender o que está sendo proposto e criticou a forma como foi enviada à sociedade, através de Medida Provisória. “Uma reforma não pode ser tratada em meio a questões políticas tão graves, quando direitos vem sendo violados. O que se encontra nas entrelinhas no que diz respeito ao Ensino Médio?”, questionou.

A superintendente convidou os estudantes a conhecerem e se aprofundarem no que essa proposta contém. “Não podemos nos posicionar sobre aquilo que não conhecemos, sem saber que problemas ou facilidades que uma proposta de ensino possa trazer para toda uma nação. Temos que garantir que todos tenham informações suficientes para fazer críticas porque não se pode posicionar se não compreender o fenômeno político, social e econômico que é a reforma do ensino médio.”
Na avaliação da diretora de Juventude da SEE, Priscylla Ramalho, os resultados do encontro confirmaram o processo de consolidação das ações de fomento à participação estudantil na escola. “Também sentimos maior apropriação pelas equipes de juventude das SREs, estiveram mais envolvidos, com melhor entendimento desse processo. As discussões, os debates, as rodas de conversa, as oficinas demonstraram que, ao contrário do senso comum, a juventude está bem organizada e com muita vontade de participar, de opinar e influenciar. A organização e participação nunca estiveram tão vivas”, avaliou Priscylla. Segundo a diretora, chamou especial atenção, a capacidade dos jovens de conviver com a diversidade, de respeitar as opiniões divergentes, de se manifestar, opinar e ouvir em seu devido momento.

A diversidade também chamou a atenção de Karina Delgado , 17 anos, do 3º ano da Escola Estadual Tiago Delgado, escola do campo no município de Lima Duarte. “Aqui encontramos pessoas de várias culturas, quilombolas, do campo, de áreas urbanas, indígenas. Foi muito bacana”, disse a estudante, que foi indicada pelo Conselho de Representantes de Turma da SRE de Juiz de Fora. Ela contou que vários estudantes se inscreveram e cada um teve dois minutos para dissertar porque seria importante representar sua região. “Falei que luto por uma escola pública de qualidade, com todos e para todos, livre de machismo, racismo, homofobia e, que neste contexto, a educação do campo precisa ser pensada e nada melhor quem vive essa realidade”, contou Karina.

Dener Guedes Mendonça, analista educacional da SRE/Januária participou pela primeira do encontro. “Foi um momento de ouvir as propostas da juventude para a educação”, disse Dener. A estudante Paula Adriele Silva de Jesus, da Escola Estadual Indígena Pataxó Bacumuxá, de Carmésia, destacou a diversidade de opiniões apresentadas no encontro, o “que nos leva a adquirir novos conhecimentos que posso repassar para a aldeia”.
Samuel Henrique de Souza, 18 anos, do 3º ano noturno Ensino Médio da Escola Estadual José Ignácio de Souza, de Uberlândia, participou pela segunda vez: “É um espaço para o jovem se expressar, debater, discutir e tirar disso ensinamentos que podemos transmitir para nossas escolas. A representatividade mostrou a força da juventude na educação do nosso estado”.
Cobertura
Uma equipe da rádio escola da Escola Estadual Caminho à Luz, do bairro Esplanada, em Belo Horizonte, fez toda a cobertura do evento, incluindo transmissões ao vivo. As estudantes Lara Magalhães e Ana Beatriz Nascimento passaram o encontro entrevistando, produzindo e editando conteúdos para o noticiário de sua escola. Os resultados também foram compartilhados com outras unidades, segundo a dupla. A cobertura foi centrada em entrevistas sobre “qual o ensino médio que você deseja”. “Encontramos muitas respostas positivas sobre o encontro, rodas de conversa, oficinas e debates. Tudo gravado e também transmitido em tempo real e publicado no Instagram @radiocaminhoaluz”.

Coordenadora do programa da SEE Radio escola MidiAção, Sandra Marques ofereceu uma oficina de rádio, orientando os estudantes o que é e como implementar uma rádio na escola. “Usamos uma metodologia com apresentação de conceitos, o que são mídias, o que é uma rádio na escola, quais equipamentos, linguagem radiofônica e, a partir disso, produzimos uma peça radiofônica de gênero e formato livres, de um a 2 minutos com o tema ‘Qual Ensino Médio você quer’. Foram seis grupos, com seis peças diferentes, com qualidade técnica e conhecimento revelador”, relatou.

Mônica Gomes, do Fórum Mineiro e Metropolitano de Educação de Jovens e Adultos (EJA) classificou o evento como “fantástico” por levar um olhar sobre a escuta da juventude. “O que está posto não é a cara dele, isso é que leva à evasão. Eventos como este oferecem o direito da fala, da escuta, leva à compreensão de seu lugar. A Educação de Jovens e Adultos agrega alunos acima de 15 anos, que já são mais de 50%, por isso temos um diálogo muito próximo com a juventude”, declarou Mônica.
Após o encontro, os cerca de 150 participantes serão multiplicadores em suas regiões, na construção de ações voltadas para a juventude e de uma escola mais democrática. A programação contou também com oficinas como a de Coletivos Juvenis, sobre como os coletivos podem contribuir para a ampliação dos espaços de participação na escola; Protagonismo Juvenil e de Metodologias Construção de Projetos, para fomentar o protagonismo juvenil nos estudantes; Educomunicação, para orientar sobre o uso dos meios de comunicação como ferramenta de produção e transmissão de conhecimento; e Metodologias Científicas aplicadas em experimentos aerodinâmicos.
Por: Elian Oliveira/ACS-SEE