Proposta mobilizou alunos, professores e familiares da Escola Estadual José Bonifácio, em Poço Fundo

Uma proposta de intervenção pedagógica, elaborada pelas professoras Freuda Gonçalves de Paiva Oliveira e Ágda Maria das Graças Silva, da Escola Estadual José Bonifácio, em Poço Fundo, Sul de Minas, empenhadas na orientação de escola inclusiva da Secretaria de Estado de Educação (SEE), provocou mudanças positivas na vida da comunidade escolar, especialmente da aluna Nathália de Carvalho Oliveira. Vindo de uma escola especial para atendimento de pessoas com deficiência, situada em Alfenas, Nathália entrou na Escola Estadual José Bonifácio, cursando o 3º ano, e ainda não era alfabetizada. À época, Freuda era regente de classe e Ágda professora de apoio à comunicação, linguagens e tecnologias assistivas.

Nathália é portadora de patologia conhecida como Segawa, uma rara forma de distonia de causa genética, síndrome caracterizada por movimentos involuntários provocados por contração muscular sustentada, levando à torção e movimentos repetitivos. O desafio, segundo a professora de apoio, Ágda Silva, “era incluí-la na turma e alfabetizá-la de forma sistemática, prazerosa, lúdica e voltada para o interesse da aluna e da classe, onde todos estivessem incluídos no mesmo contexto”.

O acolhimento pela comunidade escolar foi muito positivo, segundo a mãe de Nathália. Foto Arquivo da Escola.

Segundo a professora, os alunos da escola tinham “adoração” pela Nathália, mas ela demonstrava certa rejeição, preferindo contato com um grupo restrito. “Ela tinha dificuldades de comunicação e ficava extremamente nervosa. Irritabilidade que aflorava quando não participava da mesma atividade que os demais alunos”, relata Ágda. A turma era composta por 25 alunos, alguns que dominavam a leitura e a escrita e outros que ainda não estavam totalmente alfabetizados. O primeiro passo foi realizar uma sondagem identificando em que nível de construção da escrita se encontrava cada um dos alunos. Feito o diagnóstico, foram pensadas habilidades de forma que ela participasse de todas as atividades.

Todo o ambiente da sala de aula foi reorganizado de forma a favorecer o trabalho em um contexto que unisse o lúdico e o concreto, atendendo a todos e respeitando cada um em sua etapa de alfabetização. “Nossas aulas começavam sempre com uma leitura, pois a aluna adorava histórias. Os materiais eram elaborados com antecedência, o da Nathália ampliado de forma a facilitar o manuseio. A aprendizagem se dava com muitos jogos e músicas. E sempre mudávamos o agrupamento dos alunos para que ela tivesse contato com todos, no final do ano ela aceitava o carinho e dava atenção a todos os colegas”, conta a professora.

Os espaços da sala foram readequados. Foto: Arquivo da Escola

Dessa forma, iniciou-se também um processo de motivação e aceitação com a aluna, seus familiares e especialistas que a atendiam, informando sempre sobre a metodologia utilizada, apresentando os resultados e estabelecendo metas a serem alcançadas. “A princípio, houve resistência da fonoaudióloga e da mãe, mas foram convencidas de sua capacidade, na identificação das letras e posteriormente da alfabetização”, pontua a professora.

E os resultados vieram: no final do mesmo ano, a aluna já conseguia ler e interpretar textos e estava apaixonada por livros. “O processo de intervenção na alfabetização deve ser sistemático, retomando sempre os conteúdos introduzidos. A afetividade para com o educando e a sua percepção de que está progredindo no processo de aprendizagem faz com que o sucesso seja inevitável”, observa a professora Freuda. Para a professora Ágda da Silva, Nathália é uma aluna “alegre, companheira, apaixonada por livros e extremamente organizada”.

Patrícia Aparecida de Carvalho Oliveira, mãe de Nathália, conta que foi procurada pela diretora da escola, em 2012. “Fiquei muito receosa, porque não acreditava que houvesse essa possibilidade para a minha filha em uma escola regular. Mas depois de muitas conversas, inclusive com especialistas que atendiam minha filha, resolvi fazer a matrícula e o resultado foi muito bom. Em um ano ela já estava alfabetizada. Melhorou muito sua coordenação motora, sua fala, e de um modo geral. Houve um trabalho muito bom de socialização na escola”, declara a mãe. Hoje, Nathália, com 11 anos, cursa o 7º ano do Ensino Fundamental. A Escola Estadual José Bonifácio tem 622 alunos, sendo 52 do Atendimento Educacional Especializado (AEE), na perspectiva da inclusão.

Para a diretora de Educação Especial da SEE, Ana Regina de Carvalho, experiência como a narrada pelas professoras Freuda e Ágda tem ocorrido em todo o Estado. “É importantíssimo socializar essas experiências para que todos os educadores tenham a dimensão exata dos benefícios da Educação Especial na Perspectiva Inclusiva. Os estudantes recebem os estímulos para o processo de aprendizagem junto aos seus pares, com o sentimento de pertencimento na escola e em sua comunidade”, destaca.

Por Elian Oliveira (ACS/SEEMG)

Enviar para impressão