Projeto visa corrigir a distorção entre idade e ano de escolaridade apresentada por alunos da rede pública de ensino de Minas Gerais.

Com experiência de anos atuando em sala de aula, a professora Andréa Rocha Matos, da Escola Estadual Doutor Osvaldo Prediliano Sant'ana, localizada em Salinas, relata como o atraso escolar interfere na autoestima dos estudantes. “Muitos se sentem desmotivados, excluídos. Eles não acreditam que são capazes, que podem aprender e reverter a situação”, diz. No entanto, essa realidade vem sendo transformada desde 2016, quando a Secretaria de Estado de Educação (SEE) implantou o projeto “Elevação da Escolaridade – Metodologia Telessala”, que visa corrigir a distorção entre idade e ano de escolaridade apresentada por alguns alunos da rede pública de ensino de Minas Gerais.

“A iniciativa aproxima e proporciona um maior envolvimento entre educadores e educandos, e, as atividades lúdicas e criativas motivam os participantes, trabalham a autoestima e a confiança. Eu tinha um aluno que, no início, não conseguia olhar nos meus olhos. No final do processo, ele tornou-se um dos mais críticos, participativos da sala. A mudança é do sujeito em seus aspectos cognitivos e emocionais”, garante a professora.

Professores de diferentes escolas estaduais de MG participam de formação do projeto 'Elevação da Escolaridade - Metodologia Telessala'. Foto: William Campos Viegas (ACS/SEEMG)

Andrea é um dos 230 educadores, de diferentes municípios mineiros, que participam da 2ª formação promovida pelo projeto “Elevação da Escolaridade”. “Em sala, aplicamos os memoriais, onde os estudantes constroem a história de seu percurso; leituras livres, cartazes para registrar as atividades. Eles se sentem os protagonistas de todo o processo”, conta a professora. A capacitação ocorreu entre os dias 23 e 25 de maio, no Hotel Ouro Minas, em Belo Horizonte.

A capacitação alia a teoria e prática, mas foca também em aspectos emocionais. “Priorizamos não só conteúdo, mas também a afetividade, a valorização dos estudantes enquanto humanos, cidadãos. Esse alinhamento torna os profissionais mais confiantes para se integrarem e trabalharem com os alunos”, explica Elisângela da Silva, formadora do projeto.

No primeiro eixo “Quem sou eu?”, que trabalha a identidade, os professores contam um pouco da sua história e trajetória de vida. “A ideia é que eles levem essa estratégia para sala de aula com o intuito de pensar os educandos e a realidade em que vivem, ou seja, localizá-los de forma social, histórica, cultural e refletir sobre as propostas pedagógicas”, explica Elisângela da Silva. Eles também recebem, entre outros, materiais de língua portuguesa, matemática e ciências.

Participando pela primeira e iniciando as atividades da modalidade Telessala na Escola Estadual Itália Cautiero Franco, em Ribeirão das Neves, a professora Geniane de Souza Oliveira acredita que os ensinamentos aprendidos melhorarão sua atuação em sala de aula. “A capacitação preza pela interação e integração com os estudantes. Então, no dia a dia, essa aproximação facilitará a nossa relação e contribuirá para os alunos apreenderem o conteúdo transmitido”, diz.

Professora Letícia Carla de Andrade (frente) destaca que as atividades tornam a aprendizagem mais interessante. Foto: William Campos Viegas (ACS/SEEMG)

Para Letícia Carla de Andrade, educadora na Escola Estadual Benvinda de Carvalho, as atividades curriculares do ‘Elevação da Escolaridade’, muitas vezes lúdicas, tornam a aprendizagem mais interessante. “Eles assimilam as matérias com mais facilidade, fazem uma conexão maior entre o conteúdo e a realidade em que vivem”, afirma, completando que estimulam os estudantes. “Eles percebem que têm uma oportunidade, que são capazes e que podem ser protagonistas também nesse processo”, conclui.

Elevação da Escolaridade

Lançado em 2016, o projeto “Elevação da Escolaridade – Metodologia Telessala Minas Gerais” ampliou de 12 mil para 20.576 o número de estudantes atendidos no Estado. Atualmente, estão sendo contempladas 904 escolas estaduais de todas as 47 Superintendências Regionais de Ensino (SREs), distribuídas em 486 municípios mineiros.

A iniciativa destina-se a estudantes maiores de 14 anos e menores de 18 anos que apresentem pelo menos dois anos de distorção idade/ano de escolaridade e estudos parciais nos anos finais do Ensino Fundamental. O aluno também deve saber ler e escrever. Há possibilidade de alunos até os 20 anos serem atendidos pelo projeto caso, por exemplo, no município em que vivem não seja ofertada a Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Com uma metodologia diferenciada, o projeto tem como foco a unidocência. Os alunos que atendem aos requisitos estipulados são agrupados em turmas específicas e contam com um professor responsável por trabalhar todos os conteúdos.

O projeto é dividido em três módulos e cada um trabalha um eixo temático. No módulo I, os alunos estudam “O ser humano e sua expressão”, com foco nos componentes curriculares: Língua Portuguesa, Ciências e Educação Física. No módulo II, o eixo “O ser humano interagindo com o espaço” trabalha prioritariamente os componentes curriculares: Geografia, Matemática e Ensino Religioso. Já no módulo III é trabalhado eixo “O ser humano em ação e sua participação social” no qual são enfatizados os componentes curriculares: História, Língua Estrangeira Moderna Inglês e Arte.

A cada módulo, os componentes curriculares são abordados a partir de teleaulas que duram em média 15 minutos e são contextualizados seguindo atividades orais, escritas, de leitura e práticas, coletivas e individuais, adequadas às dúvidas surgidas em sala de aula.

A expectativa é que mais de 35 mil estudantes da rede estadual de ensino sejam formados nesses dois anos do projeto.

Por William Campos Viegas

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