Evento ocorreu no dia 17 de maio e contou com a participação de Macaé Evaristo, Secretária de Estado de Educação de Minas Gerais

Com canções que relatam o sofrimento e a luta do povo negro, a comunidade quilombola Santa Cruz, localizada no município de Ouro Verde de Minas, no Território do Mucuri, deu início, no último dia 17 de maio, à nona edição da Jornada Pedagógica Socioterritorial da UFMG. Iniciativa coletiva de extensão, a jornada objetivou desenvolver uma ação formativa com os moradores e permitir aos estudantes de Licenciatura em Educação no Campo pesquisarem sobre a comunidade onde vivem e formularem medidas para o desenvolvimento da região.

Quilombolas fazem apresentação musical durante abertura da 9ª Jornada Socioterritorial da UFMG, em Ouro Verde de Minas. Foto: William Campos Viegas (ACS/SEEMG)

Presente na cerimônia de abertura, a Secretária de Estado de Educação, Macaé Evaristo, afirmou que a Jornada é fundamental para o desenvolvimento da Educação do Campo. “Essa experiência da UFMG, envolvendo toda a comunidade, instituições, estudantes, além de contribuir para a formação dos professores, fortalece toda a agenda pensada para a educação nos nossos territórios”, discursou.

Ao lado de autoridades municipais, quilombolas, professores e representantes de movimentos sindicais da região, Macaé destacou a importância do trabalho conjunto entre as instâncias de poder. “Se queremos fazer política pública de educação, temos que superar, cada vez mais, essa ideia de que tem uma escola municipal e outra estadual. A educação é um direito de todos e é dever do estado e de suas instituições agir de maneira articulada para garantir que ela seja plena e integral para todos”, disse.

Para Maria Alves, quilombola e presidenta do Conselho Estadual de Assistência Social, a realização do evento é uma valorização da educação na região. “A nossa luta era maior do que entrar na universidade. Chorávamos pensando se os nossos jovens, depois de formados, teriam o respeito da sociedade ouro-verdense e de Minas Gerais e, hoje, é a prova de que a nossa cidade e o estado acreditam, defendem e vão garantir, cada vez mais, a possibilidade para o acesso à educação do campo. O sonho dos jovens que atualmente fazem licenciatura, não pode ser só deles, tem de ser de todos aqueles que ainda irão nascer”, afirmou

Maria Alves e Macaé Evaristo na cerimônia oficial de abertura da 9ª Jornada Socioterritorial da UFMG. Foto: William Campos Viegas (ACS/SEEMG).

Entrelaçando ensino, pesquisa e extensão, a Jornada Pedagógica, realizada entre os dias 16 e 19 de maio, promoveu ações nos cincos quilombos de Ouro Verde de Minas. “A ideia é dar ao educador do campo outras possibilidades para além da ação e intervenção em sala de aula. Nós, através das pesquisas, estamos discutindo a educação campesina com os campesinos, temos o envolvimento dos alunos e quilombolas, que estão coordenando os espaços”, explica Maria de Fátima Martins, professora da UFMG e coordenadora da Jornada Socioterritorial.

Segundo Maria de Fátima, os trabalhos de pesquisa começaram há um ano. “Durante este período, os estudantes de Licenciatura em Educação no Campo foram preparados para realizarem os estudos. As temáticas discutidas emergiram da própria comunidade, que foi até a UFMG e apresentou um diagnóstico com as demandas da região”, conta.

Temáticas

Ancorado no diálogo, o trabalho foi planejado por 21 grupos interdisciplinares formados por estudantes de Pedagogia e Licenciatura em Educação do Campo (LECampo). “Estar nessas comunidades, em especial, nas quilombolas, é importante para articularmos a teoria com a práxis vivenciada e, assim, a pesquisa cumpre sua função social. Então, estamos fazendo essa troca de experiência entre o saber acadêmicos e popular e compreendendo as especificidades e o processo de organização social e política dos quilombos da cidade”, explica Maria Aparecida Oliveira, mestranda em Educação pela UFMG.

Entre os temas formulados pelos estudantes e trabalhados com os moradores estão: empoderamento feminino, investigação do processo de construção da identidade quilombola, luta pela articulação política e social, uso das plantas medicinais, auto-organização, gênero, quintais produtivos, saberes tradicionais e práticas religiosas de matriz africana. “São assuntos que perpassam pela identidade e cultura das comunidades, mas que estão estruturados nessa vida do campo. A ideia é fazer uma pesquisa para além da coleta de dados, mas um processo de aprendizagem coletiva e compreender a formação dentro dos espaços dessas comunidades”, comenta Amanda Marcat, doutoranda da FaE/UFMG e monitora do curso de Educação do Campo.

A doutoranda ressalta a importância do intercâmbio entre universidade e a comunidade. “Aqui nesses quilombos, já temos mais de 150 alunos que ingressaram em cursos de Licenciatura em Educação do Campo na UFMG, UFV, UFVJM. Além de um direito, a educação do campo empodera, favorece o protagonismo dos moradores e, com o diálogo entre universidade e comunidade, conseguimos fazer com que eles ocupem o latifúndio do saber”, completa Amanda. Após as atividades, os estudantes elaborarão textos críticos, vídeos, fotos, livro, entre outros produtos, que serão entregues aos moradores das comunidades quilombolas.

A 9ª Jornada Socioterritorial foi promovida pelo curso de Licenciatura em Educação do Campo (LECampo) da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FaE/UFMG) em parceria com a Universidade Federal do Vale do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM).

Por William Campos Viegas

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