Semana Cultural Inclusiva estimula interação entre os alunos da Escola Estadual Fernando Melo Viana e os jovens assistidos pela APAE Meninos Gerais
Aproveitar as possibilidades das linguagens artísticas para estimular a prática cidadã e o olhar diferenciado para a diversidade. Essa é a proposta do projeto “Construindo Cidadania por Intermédio da Ciência e da Perspectiva Inclusiva”, desenvolvido com os estudantes da Escola Estadual Fernando Melo Viana, situada em Minduri, no sul de Minas Gerais. “Unimos o conhecimento científico às atividades culturais para destacar a importância da educação inclusiva e da ação social responsável, além de atitudes e valores que contribuem para que eles tomem decisões direcionadas à cidadania”, afirma Gisele Garcia, professora de Biologia e idealizadora da iniciativa.

As discussões do projeto ocorreram durante as disciplinas de Biologia e Artes. “Para habituá-los, debatemos, entre outros assuntos, sobre o papel da ciência, genética humana, deficiências e suas causas, além da tecnologia como aliada na superação das diferenças e na promoção da acessibilidade. Já na aula de Artes, eles prepararam as apresentações culturais e artísticas”, explica Gisele, que pensou em inserir a proposta na agenda escolar após participar do curso de extensão “Acessibilidade Cultural, Articulações e Reflexões na Formação de Professores”, promovido pelo Núcleo de Estudos e Formação Docente, Tecnologia e Inclusão (NEFTI), da Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI).
Realizado pela primeira vez no final de 2016, o projeto extrapolou os muros da escola e chegou à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) Meninos Gerais, da cidade. “Foi primordial essa parceria, pois conseguimos conhecer as necessidades e vivências das crianças e adolescentes da instituição, aprendemos mais sobre acessibilidade e sobre as tecnologias assistivas (TA) utilizadas na associação”, ressalta Gisele.

Gislaine Aparecida Aguiar Silva, diretora da escola, lembra que a iniciativa trouxe uma temática que não é comum no dia a dia da instituição. “Não temos alunos com deficiência e a questão da inclusão, por vezes, não era discutida de maneira aprofundada. Com o projeto, compreendemos que precisamos formar uma juventude consciente e preparada para acolher, receber e respeitar todos os cidadãos”, afirma. De acordo com a diretora, a escola possui dois estudantes com a Síndrome de Asperger – que é um transtorno do desenvolvimento, resultante de uma desordem genética, e que apresenta semelhanças com o autismo.
Cultura e Inclusão
Para fomentar a interação e integração entre os educandos da Escola Estadual Fernando Melo Viana e os jovens assistidos pela APAE Meninos Gerais, foi organizada a Semana Cultural Inclusiva. “O evento promoveu o intercâmbio de saberes e proporcionou avaliarmos a reação dos participantes que, apesar de estarem próximos, nunca haviam se encontrado”, pontua a professora.
Entrelaçando os temas acessibilidade, inclusão, cultura e ciências, os estudantes elaboraram exposições e murais. “Todas as ações e mobilização foram pensadas pelos próprios alunos e tinham que reforçar a importância da inclusão social”, comenta Gisele.
Eles também elaboraram poemas, danças, paródias e músicas – cantada, encenada e na Língua Brasileira de Sinais (Libras). “São atividades artísticas simples, mas que atingem a todos. A linguagem das artes aproxima e torna palatável assuntos que, para muitos, ainda são tabus e desconhecidos”, comenta Waldinei Elias Delfino, professor de Artes.

Além dessas atividades, os alunos participaram da oficina de recursos de tecnologia assistiva. “Eles criaram, entre outros aparatos, talheres modificados, suportes para utensílios domésticos, abotoadores, barras de apoio. Estes objetos proporcionam uma mediação instrumental, favorecem, compensam, auxiliam e potencializam as habilidades ou funções pessoais comprometidas pela deficiência motora, visual, auditiva ou de comunicação, e promovem a qualidade de vida e a inclusão social”, explica Gisele.
Superação
Durante a Semana Cultural e Inclusiva, a relação entre deficiência e superação também foi debatida. “Todos os dias as pessoas com deficiência vencem um obstáculo, dificuldades e problemas que, muitas vezes, não são vistos pela sociedade. Hoje, muitos estudam, cursam faculdade, trabalham. É algo motivador”, pontua a estudante, Sthéfani Helena de Souza.
Para a aluna Paloma Jéssica Simas, é urgente a necessidade de promover, efetivamente, a acessibilidade e a inclusão no ambiente escolar. “As escolas precisam contratar professores preparados para cuidar de pessoas especiais e transformar a estrutura física de seus espaços. Acredito que, quanto mais pessoas com necessidades específicas lutarem para entrar na escola, seja pública ou privada, mais ações serão realizadas para incluir esses cidadãos” afirma.
A professora Gisele Garcia destaca as dificuldades que pessoas com deficiência enfrentam no dia a dia. “Não temos alunos com deficiência e, infelizmente, nem condições físicas de acessibilidade para acolher pessoas com necessidades especiais. Além disso, há, em nossa sociedade, um preconceito silencioso, velado. Há muros invisíveis que separam a escola da APAE, que está localizada na mesma rua. A perspectiva inclusiva foi um bom momento para refletirmos sobre essas questões”, diz.
Apesar dessas barreiras, ela reforça o papel da instituição de ensino no processo de formação cidadã dos estudantes. “É o espaço ideal para promover a cidadania, o respeito às diferenças e a busca pela igualdade. Quero que os alunos saibam intervir na sociedade, que lutem por melhorias para todos, busquem o bem comum e não aceitem e nem propaguem nenhuma forma de preconceito, completa.
Dos 430 estudantes, participaram 60 do 2º e 3º anos do Ensino Médio, 30 do Fundamental e 25 da APAE. “A atitude da escola foi nobre, pois nos permitiu interagir, trocar conhecimento e conhecer a realidade de pessoas tão especiais”, comenta a aluna, Raquel Oliveira Ferreira. Todas as ações estão reunidas em um documentário - acesse-o aqui - realizado pelos professores e alunos.
No segundo semestre de 2017, haverá mais uma edição do projeto “Construindo Cidadania por Intermédio da Ciência e da Perspectiva Inclusiva”. “Realizaremos novas atividades para aproximar a APAE da escola. A ideia é torna-lo interdisciplinar e alcançar um maior número de alunos, além de pais e moradores da comunidade”, afirma Gisele.