Evento reuniu mais de 300 pessoas em Ouro Preto, entre gestores das SREs e professores das áreas de Ciências Humanas


Um dia dedicado à reflexão sobre temas da atualidade que afetam os gestores e educadores em seu cotidiano de trabalho. O III Encontro Educadores (as) pela Liberdade, que aconteceu na última quinta-feira (20 de abril), em Ouro Preto, reuniu mais de 300 gestores da Educação e professores das áreas de Ciências Humanas da rede estadual de ensino em um momento de formação, no qual foi possível conhecer diferentes visões e ideias sobre democracia, juventudes, feminismo, movimento negro e suas conexões com a área de Educação. Para sua realização, a iniciativa contou com o apoio da Superintendência Regional de Ensino de Ouro Preto. 

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O encontro, como na primeira edição, aconteceu, não por acaso, às vésperas das comemorações da Inconfidência Mineira. “A ideia de realizar este Encontro surgiu em um contexto de uma agenda muito conservadora, que se propunha não só a golpear direitos, mas que vinha embalada numa campanha forte contra a Educação Pública e em especial contra os educadores. Essa campanha era travestida numa agenda que se chamou escola sem partido, mas que a gente poderia chamar de escola anti-democrática porque vinha sob o argumento de silenciar os educadores nas salas de aula. Na verdade, ferindo o direito do educador, que está lá na LDB, que é o direito à livre docência, à liberdade de ensinar associada à liberdade de aprender”, lembrou a secretária de Educação, Macaé Evaristo, ao falar da concepção do Encontro, cuja primeira ediação aconteceu no ano passado. “A intenção foi construir um espaço que nos possibilitasse sentar com educadores para refletir sobre aquilo que ameaça as liberdades individuais e o Estado Democrático de Direito”.

Democracia, juventudes e feminismo

A primeira mesa do dia foi dedicada ao tema “Democracia, Criminalização da Juventude” e teve como convidados a ex-ministra de Estado das Mulheres da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, Nilma Lino Gomes; a jornalista e colunista do jornal "O Globo", Flávia Oliveira; e a presidente da União Colegial de Minas Gerais, Késsia Cristina Teixaira; e o advogado Hédio Silva Júnior. 

“Os conceitos são produções culturais e dizem respeito a trajetórias, a processos, a permanências , a rupturas do acontecer humano e se localizam em campos de disputa”. E sua fala, a ex-ministra e professora Nilma Lino Gomes discorreu sobre o significado das palavras democracia, juventude e feminismo e como elas dialogam com a área da Educação. “Falar em democracia neste momento no Brasil é um grande desafio, porque nós estamos lutando para que nossa democracia sobreviva, para que não seja mais atropelada, mais golpeada do que tem sido”, ponderou ela.

Citando o professor Alexandre Medeiros, Nilma Lino recapitulou o conceito de democracia desde a Grécia Antiga. “Desde os seus primórdios, a democracia vem inacabada. E nós vivemos um momento de inacabamento desta democracia”, completou ela. “E esta democracia que ainda está inacabada sofre a possibilidade de ser destruída. E isso é muito sério para a educação, porque a educação é o campo por excelência onde nós lutamos para que essa democracia se enraíze”. Nilma questionou se a democracia está de fato sendo praticada na educação pública: “será que podemos dizer que introduzimos uma forma democrática nas escolas? O Estado escuta as categorias? As famílias participam das decisões?”, foram alguns dos questionamentos apresentados pela ex-ministra.

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Com relação às juventudes, Nilma acredita que seja necessário reconhecer a pluralidade deste público. “Falamos em juventudes porque existem vários e diversos modos de ser jovem no mundo. Atuar na escola com as jovens e os jovens significa entender que a condição juvenil é plural, é culturalmente localizada, que ela não é um atributo inato no humano, é também construída. E com o passar dos anos nós vamos assistindo muitas mudanças nas formas como os jovens se constroem e se realizam no mundo”.

Ela defende que há desafio de entender a juventude como ela é hoje e que em cada organização escolar essa vivência juvenil pode ser manifestar de forma diferente, ou seja, não há um modelo de trabalho. “Há lugar para a pluralidade juvenil se manifestar nas escolas? As distintas realizadas experimentadas pelos jovens fazem parte do nosso currículo e das nossas preocupações? Consideram-se que os jovens não são apenas estudantes?”.

O tema do feminismo foi abordado por Nilma a partir da concepção de Clara Averbuk. “Ela afirma que feminismo não prega o ódio, não prega a dominação das mulheres sobre os homens. Feminismo clama por igualdade e pelo fim da dominação de gênero, e de um gênero sobre o outro. Feminismo não é o contrário de machismo. Machismo é um sistema de dominação histórico, enquanto feminismo é uma luta por direitos iguais. O feminismo luta contra um sistema de dominação machista, patriarcal, que privilegia os homens e que foi criado pelos próprios homens”.

Confira a fala da ex-ministra Nilma Lino Gomes. 

Estereótipo

A jornalista e colunista do jornal “O Globo”, Flávia Oliveira, apresentou dados sobre juventude e educação e falou sobre a representação simbólica das mulheres e dos negros na mídia e no imaginário sociológico. A partir de uma busca por imagens no Google, associadas a palavras como homem, mulher, jovem, criança, aluno, família, entre outras, Flávia mostrou como predominam as referências machistas, racistas e estereotipadas do negro e da mulher, no Brasil. “Normalmente expressões ligadas a referências positivas estão associadas principalmente aos homens brancos e aos arranjos familiares hetero-normativos. E a escola infelizmente reproduz esse padrão”.

Confira AQUI a fala da jornalista Flávia Oliveira.

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A representante a presidente da União Colegial de Minas Gerais, Késsia Cristina Teixeira, falou sobre a conjuntura política atual do Brasil. “Hoje a Educação tem sofrido um ataque direto dos conservadores. Porque a educação é a arma mais poderosa para se transformar o mundo e o jovem, com a educação, consegue compreender as coisas e se organizar. A educação liberta”.

Confira a fala de Késsia Cristina e a do professor Hédio Silva Júnior.

Na parte da tarde, a professora e coordenadora do Projeto República núcleo de pesquisa documentação e memória da UFMG, Professora Heloísa Starling, faz uma apresentação do projeto do Memorial da Democracia. 

A mesa que se seguiu teve como tema de discussão "Educação, Feminismo e Empoderamento", com a participação da presidenta nacional da União Nacional dos Estudantes (UNE), Carina Vitral; a subsecretária de Políticas para Mulheres de Minas Gerais, Larissa Amorim Borges; e a superintendente de Modalidades e Temáticas Especiais de Ensino da Secretaria de Estado de Educação, Iara Félix Viana.

Confira AQUI o áudio da professora Heloísa Starling.

Confira os áudios das falas de Iara Félix, Carina Vitral e Larissa Borges.

 

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