Medidas alcançarão 1900 alunos atendidos no sistema socioeducativo

Nesta semana, os 24 centros socioeducativos de Minas Gerais retomam as aulas e apresentam novidades para o ano letivo de 2017. No momento em que os alunos das escolas do Sistema Socioeducativo entram em sala de aula, a Secretaria de Estado da Educação (SEE) coloca em prática as novas Diretrizes Pedagógicas. Pensadas pela Subsecretaria de Desenvolvimento da Educação Básica em conjunto com a Subsecretaria de Atendimento Socioeducativo da Secretaria de Estado de Segurança Pública, essas diretrizes preveem que o conteúdo deverá ser trabalhado de maneira interdisciplinar considerando as peculiaridades dos jovens que cumprem medidas socioeducativas.

As novas diretrizes pedagógicas visam à redução da distorção idade/ano de escolaridade dos estudantes, que, em média, é de 4,3 anos e a garantia de uma educação de qualidade. “Compreendemos que a metodologia do sistema regular de ensino, utilizada até o ano passado, precisava ser readequada para atender à demanda desses adolescentes. Muitos apresentam defasagem de leitura e escrita, então, pensamos em algo mais atrativo, estimulante, que faça sentido e se relacione com a realidade e habilidades desses alunos”, explica Poliana de Souza Vieira, da Coordenação de Educação em Direitos Humanos da SEE.

Segundo Michele Silva Pires, Analista Educacional da Diretoria de Ensino Fundamental da SEE, "a oferta do Ensino Fundamental buscará oferecer aos adolescentes e jovens em cumprimento de medida socioeducativa de internação a possibilidade de reorganização do percurso escolar ao propor um trabalho diferenciado com os tempos, espaços e saberes próprios deste contexto. Sendo a Educação um dos eixos da medida socioeducativa, qualificar sua oferta, alinhando-a às especificidades dos sujeitos atendidos, é uma forma de efetivamente construir possibilidades de formação crítica, reflexiva e cidadã”.

Alunos da Escola Estadual do Centro Socioeducativo São Francisco de Assis, em Governador Valadares. Foto: arquivo da escola

Participação cidadã

De acordo com as novas diretrizes, a proposta curricular do Ensino Médio prevê a contratação de professores por área de conhecimento e priorizará a Formação Básica e a Participação Cidadã. “A ideia é articular e integrar as áreas e os temas relevantes à vida dos jovens – território, política e transformação”, explica Cecília Resende, superintendente de Desenvolvimento do Ensino Médio da Secretaria de Estado de Educação (SEE).

A aprendizagem será construída por meio da participação ativa e do diálogo incentivando, dessa forma, a troca de experiências e a colaboração de todos os envolvidos no processo. “Para os estudantes é necessário uma nova forma de aprender que pressupõe um investimento pesado em um projeto de autoria e escrita que, partindo dos saberes já existentes e nas discussões realizadas em sala, permita produzir propostas de intervenção na sociedade”, afirma Cecília.

Pela nova metodologia, haverá, para cada área de conhecimento, um professor orientador nas unidades formativas e outro articulador de um plano de participação cidadã. Eles ajudarão os jovens a elaborarem um livro-portfólio reunindo o conteúdo trabalhado ao longo do ano em cada área de conhecimento e a experiência vivenciada pelos estudantes. “Professores e estudantes são os atores da transformação da informação em conhecimento. Ambos tornam-se, ao longo do processo, aprendizes”, ressalta Cecília.

Motivação

Essa nova proposta alcançará os 1900 jovens atendidos nas escolas do Sistema Socioeducativo. Para Marcos Alves Fernandes, diretor da Escola Estadual do Centro Socioeducativo São Francisco de Assis, em Governador Valadares, as novas diretrizes pedagógicas motivarão os estudantes. “É uma forma de conseguirem crescer e se ressocializarem, pois, eliminando a defasagem série e idade, poderão voltar ao sistema regular quando forem desligados do socioeducativo e finalizarem seus estudos mais rapidamente. É olhar para eles com mais atenção, carinho e isso é fundamental para que se sintam mais capazes”, comenta.

O diretor destaca ainda o processo para seleção dos professores que atuam no sistema socioeducativo. “É fundamental identificar profissionais que sejam capazes de compreender, lidar com esses alunos e a realidade em que vivem. Eles precisam se preocupar com a formação cidadã desses jovens para que sejam reinseridos, efetivamente, na sociedade”, diz.

Segundo Marcos, no Centro Socioeducativo São Francisco de Assis, os professores atuam como parceiros e estimuladores dos alunos. “Mais do que educadores, esses profissionais são formadores de cidadãos. Mantemos uma relação amistosa, respeitosa, alicerçada no diálogo para ajudarmos esses adolescentes a reconstruírem, por meio da educação, suas vidas”, afirma.

Atualmente, a escola conta com 110 alunos, sendo 97 em cumprimento de medida de internação e 13 em internação Provisória. Uma das ações do Centro Socioeducativo para estimular os alunos é a participação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). “Em 2015, após fazerem a prova, dois jovens conseguiram bolsas de estudo. Um foi aprovado no curso de Enfermagem na Universidade Vale do Rio Doce e o outro em Direito, na Faculdade de Direito do Vale do Rio Doce. No ano passado, alguns conseguiram concluir o ensino médio”, conta Marcos.

Apesar desses exemplos e de todo incentivo, o diretor aponta que a sociedade ainda é preconceituosa com adolescentes que cumprem medidas socioeducativas. “Há resistência com eles, mesmo que estejam estudando e cumprindo sua pena. Buscava emprego para alguns jovens, mas os empresários sempre ficavam desconfiados. Muitos não acreditam na capacidade de mudança deles”, relata.

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