Disciplina “Diversidade, Inclusão e Mundo do Trabalho”, conteúdo incluído no turno da noite, apresenta resultados positivos
Alunos da rede estadual que fazem o Ensino Médio no turno noturno e aqueles que retornam à escola para dar continuidade aos estudos na modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA) têm encontrado um incentivo a mais para estar na escola. As aulas interdisciplinares proporcionadas pelo novo conteúdo curricular “Diversidade, Inclusão e Mundo do Trabalho” (DIM), introduzido neste ano para turmas do Ensino Médio noturno e EJA, vêm apresentando resultados surpreendentes.
O DIM é parte das mudanças promovidas pela Secretaria de Estado de Educação (SEE) no Ensino Médio noturno e na EJA. As reformulações incluem, além da nova disciplina, flexibilidade no horário de entrada conforme as necessidades dos alunos de cada escola e readequação do quadro de horários, respeitando as particularidades desse público.
Com a nova estrutura, um horário semanal é reservado às aulas de DIM, ministrada por três professores ao mesmo tempo. A nova disciplina foi recebida em algumas unidades de ensino com certo ceticismo e apreensão. “Essas reações são normais quando se trata de inovação”, reconhece o diretor de Ensino Médio da SEE, Wladmir Coelho.

“Confesso que recebemos com certa preocupação a nova proposta. Era algo inovador e sequer imaginávamos por onde começar. Aos poucos, nos inteiramos junto à Secretaria de Educação e à Superintendência Regional (Metropolitana C) e depois de algumas reuniões os próprios professores concluíram que deveríamos começar por melhorar o ambiente interno da escola”, conta a supervisora pedagógica da Escola Estadual Imaculada Conceição, de Pedro Leopoldo, Danielly da Silva Araújo. Uma carta dirigida aos alunos explicou a nova proposta que foi discutida em cada turma. A dinâmica resultou em 13 projetos executados no primeiro período do ano.
O professor de Língua Portuguesa na Escola Estadual Dr. Alcides Mosconi, no município de Andradas (SRE Poços de Caldas), Fernando Henrique Oliveira, conta que a primeira experiência com o DIM foi “assustadora”. “Depois fomos compreendendo melhor e com as parcerias que conquistamos e as oficinas que foram se integrando, percebemos que os alunos já estão familiarizados com a disciplina e até se mostram ansiosos para os próximos passos”, aponta Fernando.
Liberdade
O grande mote do novo conteúdo curricular é proporcionar liberdade a alunos e professores em elaborar seus próprios projetos, seguindo as temáticas que eles escolherem. “Observo que cada escola interpreta ‘Diversidade, Inclusão e Mundo do Trabalho’ de forma diferenciada, pensando em seu território. Essa é a oportunidade de dar voz ao aluno, entender sua linguagem e construir com ele os projetos que fazem sentido em suas vidas e na de suas comunidades”, explica Cecília Resende, superintendente de Desenvolvimento do Ensino Médio da SEE.
Muitos desses trabalhos convergem com os esforços em valorizar a iniciação científica nas escolas. Segundo Wladmir Coelho, o Programa de Iniciação Científica que apresentará, neste segundo semestre, 13 Feiras de Ciências em espaços públicos de várias regiões do Estado, ganhou reforço especial no turno da noite com o novo conteúdo. “Como algumas escolas estabeleceram convênios de pesquisa científica com instituições superiores, no caso do noturno, alguns projetos são orientados com equipes de ensino superior”, relata o diretor de Ensino Médio.

A SRE Metropolitana C, por exemplo, firmou parceria com o Centro Universitário UNA e a cada 15 dias os professores realizam trabalhos interdisciplinares com acompanhamento da instituição. Para Cecília Resende, um programa integrado de Educação Básica e Superior permite que a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) ofereça estagiários de licenciatura. “O que, em nossas escolas, tem potencializado projetos dinamizados pelo conteúdo curricular DIM”, pontua.
Os resultados têm repercutido no meio educacional. Segundo Cecília, a SEE tem recebido inúmeros pedidos para que seja implantado nos demais turnos o conteúdo interdisciplinar. “Temos um grupo de trabalho estudando essa possibilidade, mas precisamos entender que os públicos são diferenciados e devem ser trabalhados de formas específicas”, afirma a superintendente de Ensino Médio.
O monitoramento desses primeiros meses de experiência com a Diversidade, Inclusão e Mundo do Trabalho está sendo feito através de um questionário enviado às SREs para que possam responder sobre os resultados das inovações. “Assim poderemos avaliar e fazer os ajustes, caso necessários,” explica Cecília.
Redes sociais
As diversas respostas ao novo conteúdo curricular ganharam um espaço nas redes sociais. Foi criado o facebook “Ensino Médio Noturno”, onde vários relatos vêm sendo postados. Simone Reis, professora de História da Escola Estadual Betina Gomes, no distrito de Contrato, em Itamarandiba (SRE Diamantina), relata que através da implementação do componente curricular na EJA, que propõe integração entre disciplinas, estão sendo trabalhadas particularidades da comunidade onde a escola está inserida. “Nessa perspectiva os alunos têm abordado as principais temáticas que eles julgam que devam ser discutidas”, conta a professora.
Professora de Língua Portuguesa na Escola Estadual Padre Henrique Peteers, de Campo Florido (SRE Uberaba), Sandra Beatriz de Melo, acompanhou dois projetos que causaram empolgação entre os alunos. “Primeiro resolvemos descobrir e registrar as condições em que se encontravam as nascentes dos córregos Barrinha e Piticó, que atravessam a cidade”, destacou. Os alunos dessa escola pesquisaram junto à prefeitura - parceira no projeto - sobre as possibilidades geográficas das nascentes.

Com transporte fornecido pela municipalidade procuraram as pequenas reservas que restam na região e identificaram as duas nascentes que se encontravam bastante assoreadas com detritos da cana (muito cultivada na região) e com erosões.
Para o próximo semestre, segundo Sandra de Melo, o projeto será o reflorestamento das nascentes: “Já conseguimos o apoio de um agrônomo que ajudará na pesquisa e identificação das espécies nativas e vamos promover a desobstrução dessas nascentes e replantar seu entorno”. O envolvimento dos alunos é contagiante, segundo a educadora. “A princípio imaginei que não haveria muito interesse, mas me surpreendi”, comemora. Sandra disse que o interesse maior partiu dos alunos da EJA e essa participação empolgou aos demais. “Achei que, por trabalharem o dia todo, eles não se envolveriam nas pesquisas de campo. Foi o oposto, as visitas eram feitas aos sábados com presença em massa dos alunos”.

Outro projeto da escola foi resgatar a Folia de Santos Reis, que acontece há 109 anos na cidade e não havia qualquer registro. Nessa primeira etapa reuniram depoimentos, fotos e escritas e dessa pesquisa sairá o próximo projeto: a edição de um livro.
A Secretaria de Estado da Educação definiu, para o ano de 2016, a inclusão da disciplina DIM (Diversidade, Inclusão e Mundo do Trabalho), com o objetivo de dinamizar o turno noturno das Escolas Estaduais de Minas Gerais. A proposta foi um dos resultados das Rodas de Conversa, da campanha Virada Educação Minas Gerais (VEM), do ano passado, cujo objetivo era o de tornar a escola mais atrativa e conquistar os mais de 170 mil jovens entre 14 e 29 anos que não concluíram o ensino médio ou abandonaram a escola.