Em seu segundo dia, encontro discutiu desenvolvimento, movimentos sociais e convergências possíveis

Três mesas de debates aconteceram no segundo dia do Seminário que discutiu o papel do Brasil no Festival Mundial de Artes e Culturas Negras, evento que será realizado no país no ano que vem. Por dois dias (09 e 10/6), vários segmentos da Educação e de Artes do Brasil, Costa Rica, Congo, Angola, Venezuela, Haiti, Nigéria e EUA se reuniram no auditório do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG). O encontro foi promovido pelas secretarias de estado de Educação (SEE) e da Cultura (SEC).

Na abertura do segundo dia, a mesa composta pela secretária de Estado de Educação, Macaé Evaristo; pelo cientista social e pesquisador do Congo, Kabengele Munanga; pelo coordenador do Instituto de Arte e Cultura Yorubás, Michael Olusegun Akinruli, da Nigéria; além de Sheila Walker, antropóloga dos Estados Unidos e Valnicéia Silva Santos, do Centro de Estudos Africanos\UFMG, discutiu o tema “África: Diáspora Convergências Possíveis.” 

No período da tarde outras duas mesas discutiram “Os movimentos Sociais África/Diáspora” e “ África/Diáspora: Economia, Desenvolvimento e Sustentabilidade”.

Seminário foi uma prévia para encontro internacional no ano que vem. Foto: Elian Oliveira/ACS-SEE

A secretária Macaé Evaristo abriu os trabalhos falando da luta dos negros no Brasil pelo direito à educação, das políticas de exclusão na trajetória do ensino brasileiro, e do papel das mulheres negras, “num contexto mundial de uma sociedade machista”.

Macaé lembrou que no Brasil é preciso ainda desconstruir a ideia de que o negro é o responsável pelo subdesenvolvimento. A secretária denunciou a tentativa constante das elites em atacar políticas afirmativas, e alertou do risco para o país diante de movimentos políticos no sentido de “dilapidar as conquistas das políticas afirmativas”.

Michael Olusegun, da Nigéria, expressou o sentimento de apreensão dos países africanos em relação à política externa brasileira, sinalizada pelo governo interino. Segundo ele, o movimento governista no sentido de priorizar relações com países do hemisfério norte em detrimento das relações Sul-Sul, e a possibilidade de o Brasil minimizar sua participação nos BRICS (grupo econômico formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) “colocariam em risco não só os avanços no Brasil, mas em todo o continente Africano uma vez que o país, na última década, foi o protagonista na expansão econômica dos países africanos”, argumentou ele. “ A política externa do Brasil promoveu novas relações comerciais entre todos os países do mundo, mudando a correlação de forças entre as nações e, principalmente, estabelecendo um comércio mais justo e solidário”.

Representante da Nigéria defendeu a continuidade das relações Brasil/África. Elian de Oliveira/ACS-SEE

O representante da Nigéria destacou a interação promovida entre os países da África, que cada vez mais investem entre si, e a importância da política externa brasileira no fomento a esses investimentos. “O Brasil é um dos maiores parceiros das nações africanas, movimentando nos últimos anos 47 bilhões de dólares. Não é uma mera coincidência que o país sediará o primeiro festival de artes e culturas negras fora do continente africano”.

A socióloga norte-americana Sheila Walker descreveu a diáspora dos povos africanos através do mundo, com ênfase nas Américas. Ela falou de convergências que fizeram com que a África contribuísse com a humanidade. “Não se pode contar a história da humanidade sem conhecer as origens africanas dos povos e suas contribuições com tecnologias na agricultura, nas artes, nas culturas, na exploração mineral, na alimentação e em tantas outras frentes. Precisamos conhecer a diáspora para saber quem somos”.

Organizado pelo Governo de Minas, por meio das Secretarias de Educação, de Cultura, e de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania, e da Assessoria de Relações Internacionais, em parceria com o Comitê Curador do Seminário Mundial das Artes e Cultura Negra, o Seminário teve como objetivo identificar desafios e possibilidades para estabelecer espaços de diálogo e de intercâmbio de experiências entre povos, movimentos sociais na Diáspora e na África e, assim, tecer redes de solidariedade efetiva entre a África, Brasil, América Latina, o Caribe, Europa, Ásia e os Estados Unidos.

Abrigando a maior população afrodescendente fora do continente africano, o Brasil receberá o Festival Mundial de Artes e Culturas Negras, que acontece fora da África. O encontro é inspirado nos festivais acontecidos no Senegal em 1966 e 2010 e na Nigéria, em 1977.

Superintendente Iara Félix destacou as relações culturais Brasil/África. Foto: Elian Oliveira

“A contribuição da arte e cultura negra de modo geral para o cenário nacional só enriquece cada vez mais nosso entendimento do que é ser negro em Minas Gerais”, destaca Iara Félix Viana, superintendente de Modalidade e Temáticas Especiais de Ensino, da SEE.

Minas Gerais tem a segunda maior população afrodescendente do país. A Secretaria de Estado de Educação (SEE) lançou no início de 2015 a Campanha AfroConsciência, que teve o objetivo de fomentar, por meio de diferentes iniciativas, ações nas unidades escolares para a superação do preconceito racial, na busca pelo reconhecimento e valorização da história e da cultura dos africanos na formação da sociedade brasileira, além de iniciativas que enfrentem o racismo e promovam a igualdade racial no âmbito educacional no Estado. A base da Campanha AfroConsciência é a Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afrobrasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares no Brasil.

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