Evento de formação “Educadores(as) pela Liberdade” ocorrido em Ouro Preto antecedeu comemorações do 21 de abril

Os movimentos sociais brasileiros têm muito o que contribuir para a Educação e a liberdade em nosso país. Mostrar a relação entre estes atores sociais e as práticas e conceitos que hoje compõem a Educação foi o objetivo da mesa ocorrida na quarta-feira à tarde (20/04) no encontro “Educadores(as) pela Liberdade”, que contou com as presenças das professoras Dulce Pereira, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), e Lúcia Alvarez, da Universidade Federal de Minas Gerais. A iniciativa da Secretaria de Educação reuniu professores e gestores da Educação de todo o Estado em Ouro Preto, em um momento de formação e reflexão.

A pesquisadora Dulce Pereira mostrou como a sociedade brasileira sempre foi desigual em vários níveis – econômico, social, político, cultural, dentre outros – e sempre se estruturou na forma de uma pirâmide onde a base é formada por 70% de pobres. “ Vimos em nosso país um modelo excludente que imobiliza as pessoas em determinados papéis. Temos uma rigidez enorme nas condições de participação, no gerenciamento do conhecimento, na distribuição da riqueza. Apenas alguns gerenciam a riqueza cultural, material, espiritual, entre tantos outros aspectos”, enfatizou ela, mostrando que esta pirâmide é definida pela origem étnica, com os negros ocupando a base e os brancos, o topo.

Esta realidade começa a sofrer grandes mudanças, segundo a educadora, a partir das políticas públicas nas grandes áreas sociais, “quando os recursos tocam aqueles imobilizados”. São os investimentos em saúde, assistência social, divisão da terra, alimentação, educação, meio ambiente, que, de acordo com ela, reduzem a desigualdade. “Aí se destacam as lutas dos movimentos sociais, que buscam a mobilidade coletiva, e não apenas a individual. A atuação dos movimentos busca a conquista de direitos e mostra que juntos é que somos fortes”, afirmou Dulce Pereira.

Ao abordar a área da Educação e sua relação com os movimentos sociais, a professora buscou o conceito de território. “É preciso pensar o que é valor, o que é conhecimento do território e no território”. E defendeu uma escola sustentável, com as instituições de ensino tornando-se incubadoras de mudanças concretas na realidade sócio-ambiental, “por meio da educação ambiental, articulando espaço, currículo e gestão”. Dulce Pereira defendeu também a política de ações afirmativas para os negros, que são implementadas para corrigir anomalias “éticas, morais, históricas, econômicas, sociais. É uma luta da nação brasileira que deve ser levada para a escola”, ressaltou ela.

Movimentos sociais

“A educação é um projeto em disputa entre direito e mercadoria”. A educadora Lúcia Alvarez foi enfática ao mostrar a contribuição dos movimentos sociais – do campo, indígena, de juventudes, negro, LGBT, dentre outros - na definição de educação como direito e nos caminhos que a educação deve percorrer. “O movimento do campo mexe com um dos pilares do capitalismo, que é a terra. E traz a questão da terra como sendo de quem nela trabalha e não apenas de quem tem o título. Não há educação sem terra”, observou ela. E mais: “os movimentos do campo nos trazem esta percepção de escola em movimento, da necessidade de pensar uma educação nas perspectivas das marchas e dos assentamentos”.

Para a professora, os movimentos negro e indígena levantam grandes discussões e desafios para a Educação. “O movimento indígena traz a discussão de que não há educação fora do território imaginário. É pensar os ancestrais, a força espiritual que o território significa. Para o indígena, a cultura e o território são os centros da educação. Os seus livros são os seus velhos”, pontuou Lúcia Alvarez. Ela resgatou ainda o papel do movimento negro na garantia de uma democracia racial, na implementação de ações afirmativas e na valorização de saberes identitários, éticos e estéticos, como na questão da beleza negra. Como contraponto, a professora mostrou também o que os movimentos sociais esperam da Educação. “Eles esperam uma educação não neutra. Eles esperam da gente uma educação com cultura, território, identidade, inclusão e transformação social”.

Receptividade

O Encontro “Educadores(as) pela Liberdade” significou um espaço de formação e troca de experiências para os professores e gestores que comparecem à iniciativa. João Damasceno de Almeida, professor de História na Escola Estadual Pio XII, em Januária, vai levar para a sala de aula tudo que ouviu durante o Encontro. “Educadores pela liberdade já é um nome sugestivo porque nós estamos brigando por ela, pela liberdade. Como dizem por aí, o outro nome de Minas é liberdade, e nós, os educadores, temos que brigar por ela. Especialmente o professor de História, que tem que construir o fio que liga os vários contextos com o momento que estamos vivendo”, refletiu ele. “ O que eu vivenciei aqui foram aulas que com certeza vão me acompanhar lá na minha escola, no meu trato, na minha fala, na condução com os meus alunos”, garantiu o professor.

Para a professora de História Solange Palazzi, da Escola Estadual Pedro II, de Ouro Preto, o Encontro dialoga com a história presente. “Estar aqui nos fez refletir e repensar exatamente o processo republicano que nos legou esta história de liberdade que este 21 de abril representa, mas também refletir sobre democracia e liberdade neste momento tão delicado em que o Brasil se encontra”.

Patrícia Moreira Barros, da Escola Estadual Laudelina Diniz Lacerda, no município de Almenara, ressaltou a pertinência do evento e a inquietação que ele gerou. “Fiquei muito satisfeita com o evento. Trouxe uma inquietação e isso que é o mais importante. Todas estas discussões foram muito pertinentes e eu já estou atrás querendo saber o que podemos levar para o Vale do Jequitinhonha, que neste momento tem movimentos do campo, comunidades quilombolas, para quem falta muito o que fazer. Se eu conseguir levar as discussões para o Vale do Jequitinhonha, tentar levar esta inquietação que eu senti hoje, para mim já vai ser um grande avanço”.

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