Iniciativa da Secretaria de Educação reúne gestores e professores em Ouro Preto nesta quarta (20) em palestras e mesas de debates

Um momento de reflexão sobre as conjurações brasileiras e a República e sobre como a política e a música sempre estiveram entrelaçadas na história do nosso país. Assim pode ser resumida a manhã de palestras no Encontro “Educadores (as) pela Liberdade”, que acontece nesta quarta-feira (20/04) na cidade do Ouro Preto. A iniciativa de formação promovida pela Secretaria de Estado de Educação, em parceria com a Universidade Federal de Ouro Preto, reúne mais de 300 gestores e professores, especialmente de História, das 47 Superintendências Regionais de Ensino.

Às vésperas das comemorações da Inconfidência Mineira, o encontro está permitindo aos participantes entender um pouco mais sobre os movimentos históricos pela liberdade nos séculos XVIII e o diálogo desses fatos com a história contemporânea.
Na abertura do evento, a secretária de Estado de Educação, Macaé Evaristo, resgatou a história da proposta de realização do Encontro antes das comemorações do 21 de abril. “Queremos transformar este 21 de abril em um momento para os trabalhadores da Educação. Sabemos que a educação tem um papel fundamental nas lutas por liberdade e a educação em Minas Gerais está comprometida com este tema”, pontuou Macaé.

A secretária de Estado de Educação Macaé Evaristo participou da abertura do evento em Ouro Preto. Foto: Osvaldo Afonso / Imprensa SEGOV

Conjurações

Com o tema “As conjurações do Brasil e seus reflexos na República Brasileira”, a professora de História do Brasil na Universidade Federal de Minas Gerais, Heloísa Starling, mostrou como as conjurações que ocorreram em Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia, e outros movimentos libertários, colocaram a questão da República em evidência. “Foi com o Quilombo de Palmares que as autoridades portuguesas registraram pela primeira vez um movimento republicano”, lembra a educadora. “A República pode ser entendida como a disposição em se contestar os tiranos”, completa Heloísa Starling.

Contando de forma divertida sobre os personagens pitorescos da Inconfidência Mineira, como Padre Rolim, de quem ela demonstrou predileção, a professora afirmou que a conspiração que teve à frente Tiradentes tinha o objetivo de declarar a independência e implantar a República, reunindo não apenas intelectuais, mas pessoas do povo, como militares, contratadores e até contrabandistas. “Ela teve como inspiração a Declaração de Independência dos Estados Unidos e pretendia criar uma República governada pelos legislativos, com igualdade legal entre os cidadãos”, relatou.

Professora Heloísa Starling e o jornalista e escritor Franklin Martins foram os convidados do Encontro dos Educadores pela Liberdade. Foto: Osvaldo Afonso / Imprensa SEGOV

A esse movimento se somam dois outros importantes, no Rio de Janeiro (Conjuração Carioca) e na Bahia (Conjuração Baiana). “O movimento no Rio de Janeiro teve o mérito de ser um grande movimento de ideias, muito delas subversivas, que se tornaram ao alcance das camadas populares da sociedade. Transformou o debate intelectual em evento político e as questões de políticas em assunto público”, apontou a professora. A Conjuração Carioca também foi o primeiro movimento em que o conhecimento (vários médicos, estudiosos, cientistas fizeram parte da ação) foi entendido como bem público e repercutiu em ações de melhoria da qualidade de vida da população do Rio de Janeiro.

Já na Bahia, a conjuração, segundo Heloísa Starling, buscou um igualitarismo radical, encarnado no povo. “A bandeira do movimento tinha como dizer ‘Apareça e não se esconda’”, relembrou ela. Nos três eventos, a ideia de que a República é a boa gestão da coisa pública, uma forma de viver sustentada no exercício da cidadania, na liberdade, na formulação de leis extensivas a todos e na definição do bem comum.

Música e Política

No Brasil da República Velha, a relação entre música e política era intensa e de extraordinária riqueza. Foi o que mostrou o jornalista e escritor Franklin Martins, em sua palestra ‘MPB abraça o Brasil, afetos e tensões entre a música brasileira e a República’. “É impressionante a relação entre música e política neste período. São poucos os eventos políticos que não são objeto de uma ou mais músicas, que fazem ironia com os poderosos, desde 1902, quando a indústria fonográfica foi implantada no país”, apontou Martins.

Encontro reuniu mais de 300 gestores e professores das 47 Superintendências Regionais de Ensino.  Foto: Osvaldo Afonso / Imprensa SEGOV

Autores como Lamartine Babo, Eduardo das Neves, Cornélio Pires, Eduardo Solto, Sinhô, Osvaldo Santiago, entre outros, são citados por Franklin Martins, em composições de marchinhas, sambas e músicas sertanejas, dentre outros ritmos. Nas letras, chacotas às desventuras políticas, narrativas de eventos, louvores aos feitos dos políticos. “Todos os gêneros musicais fizeram músicas políticas. A única que não fez foi a bossa nova, que ficou no amor, no sorriso e na flor, mas de onde surgiram nomes proeminentes da MPB”, afirmou o jornalista. “O que o nosso povo cantou, compôs e gravou foi de uma riqueza grande. Isso mostra como a política foi apropriada pelo povo. Mostra a política menos dentro dos bastidores e mais como as pessoas reagiram. Uma história que é viva, cantada”, destacou.