A partir do uso do braile, educadoras de escola de Coromandel obtêm sucesso na alfabetização de aluno com baixa visão

Responsável por orquestrar a construção do saber entre os estudantes, o educador também pode aprender durante o desempenho de sua profissão. Essa experiência é vivenciada pela professora Rosilaine Maria da Silva Caixeta que atua na alfabetização de crianças na Escola Estadual José Emílio de Aguiar, em Coromandel, no Triângulo Mineiro. No ano passado, a educadora lecionou, pela primeira vez, para um aluno com baixa visão, Gabriel Andrade Dias, de sete anos. “Sempre acreditei na inclusão e admiro o trabalho daqueles que realmente fazem a diferença, contribuindo para a socialização e para o aprendizado dos alunos com deficiência. No entanto, me via de mãos atadas. Realmente não era fácil. Mas eu tinha que desenvolver um trabalho pedagógico capaz de incluir e contribuir para a alfabetização dele”, explicou.

A partir das ações desenvolvidas pelas educadoras, Gabriel passou a ser estimulado a cada dia pelas novas descobertas. Foto: Divulgação SEE

Ao invés do receio, a professora optou em ganhar aprendizado a partir desse desafio profissional. Pensar nas adaptações das aulas e outras ações para viabilizar a alfabetização de Gabriel tornou-se uma meta que foi compartilhada com os colegas de trabalho, como a professora da sala de recursos, Zilda Leandro Silveira. “Apoiadas uma na outra, buscamos auxílio através de sites disponíveis na internet, confeccionamos jogos, utilizamos o alfabeto Braille e lemos relatos de experiências de outros profissionais da área”, conta Zilda que, apesar de ter trabalhado em uma Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), ainda não tinha experiência com um aluno com baixa visão. A sala de recursos é destinada ao atendimento de alunos com deficiência e conta com material de suporte para o trabalho pedagógico com esses estudantes, como jogos e materiais concretos.

Os conteúdos curriculares passaram a ser trabalhados com materiais concretos, sobretudo na Matemática. Foto: Divulgação SEE

De um trabalho minucioso surgiram aulas diferenciadas. Os conteúdos curriculares passaram a ser trabalhados com materiais concretos, sobretudo na Matemática. Nas aulas de Ciências Humanas, o próprio corpo era utilizado como referência para estudar os sentidos, a localização e a movimentação no espaço da sala e dos outros ambientes escolares. Passeios pelos jardins da escola para pesquisar sobre as plantas, os ambientes e proporcionar experiências concretas como o tatear, o sentir, o cheiro, a estrutura física, também foram incluídos nas aulas. “Enquanto os colegas faziam um tipo de atividade de escrita, o Gabriel fazia outro, mas ele participava de todas as atividades orais, dos debates, das rodas de conversa, das atividades de socialização, das brincadeiras e jogos. Enfim, um aluno como os outros, mas que necessitava de mais atenção e de atividades que proporcionasse conhecimento, superando suas limitações visuais”, conta Rosilaine.

Descobertas e aprendizado

Nessa rotina, Gabriel passou a ser estimulado a cada dia pelas novas descobertas. “Eu aprendi a usar o braile, as teclas e até escrevi histórias como a de um passarinho que morava em uma árvore que o lenhador queria cortar, mas no final ele não cortou não. Eu gosto muito de ler e escrever histórias”, lembra o estudante que, em 2015, cursa o segundo ano do ensino fundamental e continua aluno da professora Rosilaine.

Em casa, a dedicação de Gabriel aos estudos é confirmada pela mãe, Bruna Lara da Silva Dias. Na hora das atividades escolares, a parceria é o ponto alto na relação entre mãe e filho. “A professora da sala de recurso digita as atividades em braile para ele e me encaminha uma folha, como a dos outros alunos da sala, para que eu possa acompanhar com o Gabriel”, conta Bruna.

Mesmo estudando no período da tarde, a mãe explica ainda que durante as segundas, quartas e sextas-feiras, ela leva Gabriel para a escola no período da manhã para que ele frequente a sala de recursos da escola. “Quando ele estava em outra escola, na creche, ele era muito agitado, mas desde que veio para essa escola, começou a usar o braile e a frequentar a sala de recursos, o seu comportamento melhorou bastante”, destaca a mãe.

A melhora na disciplina veio acompanhada do bom desempenho no aprendizado. “O Gabriel lê corretamente em Braille, escreve com poucos erros ortográficos, produz textos em Braille, faz recontos e tem ótima oralidade. E o mais importante, o aluno se sente feliz e amado. Ele se sente capaz e participa de todos os eventos e apresentações na escola”, conta a especialista da escola, Maria Sueli Borges.

Para a professora Rosilaine, o empenho de todos mostra que não há segredos para o aprendizado bem sucedido de Gabriel, o que há é um esforço coletivo e a sensibilidade em saber observar o aluno. “É preciso um olhar mais atento, se colocar no lugar dele, procurar formas e adequações capazes de superar suas limitações. A magia que envolve a educação consiste na reciprocidade do ensinar e do aprender, pois aprendemos uns com os outros através das trocas, das experiências e também com as crianças que nos ensinam pelo seu jeito de ser e perceber o mundo”, conclui a educadora.

Professoras desenvolvem aulas diferenciadas para auxiliar no aprendizado. Foto: Divulgação SEE

Atendimento inclusivo

A Escola Estadual José Emílio de Aguiar conta com 263 alunos do 1º ao 5º ano do ensino fundamental. Deste total, 10 possuem algum tipo de deficiência como: Autismo, Síndrome de Down e Deficiência Mental. A escola atende ainda três alunos de outras escolas da região na sala de recursos.

De acordo com a diretora da escola, os professores, sempre que possível, participam de capacitação e formação continuada, com o objetivo de se manterem atualizados em seus trabalhos. “O ponto forte da nossa escola é que a inclusão não fica apenas no papel, mas sim na prática. A escola sempre recebeu de bom grado as crianças com deficiências, que precisam de atendimento especializado, tanto nas salas de recursos como nas regulares”, destaca a diretora.

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