Forpaz Regional reúne mais de 400 pessoas do Pólo Central do Estado, compreendendo mais de 30 municípios onde a promoção da paz nas escolas ganha força
Há cerca de duas horas de sua cidade, São Francisco de Paula, Claudinéia dos Santos anda com a filha Yasmin pelas ruas de Divinópolis. A filha foi para a escolinha no ano passado e, desde então, a promoção da paz nas escolas passou a ser um tema importante para Claudinéia. A poucos metros de onde as duas estão, nas dependências do Colégio Nossa Senhora do Sagrado Coração, mais de 400 educadores e parceiros da paz no ambiente escolar participam do II Fórum Regional de Promoção da Paz Escolar (Forpaz), movidos pela mesma causa que mexe com Claudinéia.
O Forpaz e seus fóruns regionais, realizados pela Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais, Defensoria Pública e outros parceiros da rede, têm como objetivo auxiliar educadores das redes estaduais e municipais a lidar com condições geradoras de violência em sua própria localidade e promover a paz. Estão representados 30 municípios do pólo Centro de Minas, formado pelas Superintendências Regionais de Ensino de Divinópolis, Conselheiro Lafaiete, Sete Lagoas e Pará de Minas.

A Secretária-adjunta de Educação de Minas Gerais, Sueli Pires, abriu os trabalhos deste segundo Fórum anunciando a ampliação da rede à região, boa notícia para Claudinéia, entre tantos outros pais e responsáveis. “Essa rede que se tece hoje aqui deve permanecer viva e se estender a todas as escolas, porque um único episódio de violência macula o bom trabalho alcançado. Temos o sonho da educação libertadora, transformadora, que nossos jovens dominem o conhecimento, mas saibam respeitar os colegas e professores”, afirma.
Mas para promover a paz nas escolas também é preciso aprender a mediar conflitos. Por isso, a programação da última quinta-feira, 23, foi voltada para o tema da mediação, dentro da II Jornada de Mediação Escolar, parte do Fórum Regional. Ao longo do dia, o conteúdo foi transmitido pelos defensores públicos Francis de Oliveira Rabelo Coutinho, Roberta de Mesquita Ribeiro e Wellerson da Silva Correia de forma clara, acompanhado de palestras, simulações e muita participação de diretores de escolas estaduais e municipais, inspetores escolares, técnicos educacionais e secretários municipais da região, além de representantes da rede parceira. Vale registrar a presença neste Fórum dos membros da Polícia Militar, que participaram ativamente de todos os momentos. “Como eles atuam na patrulha escolar e PROERD, este aprendizado é muito importante, pois lidam direto com o problema”, garante o tenente Reginaldo Sales, membro da Comissão Permanente do Forpaz em Divinópolis.
A Claudinéia dos Santos, mãe da Yasmin e moradora de São Francisco de Paula, não recebeu o aprendizado transmitido no encontro, mas, questionada sobre a solução do problema da violência que pode adentrar as escolas, não hesita: “Primeiro tem que ensinar em casa. Depois, temos que ter comunicação com a escola, participar das reuniões e procurar a direção sempre que possível para ter esse contato”, conclui.

Transformação que vira exemplo
Há cerca de quatro anos, a Escola Estadual Doutor José Maria Lobato, na cidade de Oliveira, era conhecida como “escola problema”. Mensalmente, o número de boletins de ocorrência registrados no ambiente escolar ultrapassava a marca e duas dezenas. Violência, vandalismo, evasão, faziam a má fama da instituição. Para os alunos, o modelo de sucesso na época era o de um traficante, detentor de poder e dinheiro. Este era o cenário que a diretora Ana Maria Avelar Caldeira Brant encontrou ao assumir a direção. Somente no ano de sua entrada, quase 500 alunos haviam deixado a escola.
A primeira atitude de Ana Maria no comando da escola foi levantar estatísticas sobre todos os assuntos relacionados à instituição. De posse dos números, que lhe permitiram fazer um “diagnóstico”, ela começou a pensar soluções. Seu foco inicial se voltou para os professores. “Muitos deles iam trabalhar mal vestidos na escola e bem vestidos em outras escolas. Resgatamos a autoestima dos nossos professores, seu comprometimento, sua maneira de falar com os alunos”, conta a diretora.
O passo seguinte foi sentar com os alunos para elaborar normas que deveriam se aplicar a todos, inclusive funcionários. “Passamos a ouvir os alunos, ajudamos em suas questões familiares, colocamos os mais problemáticos para trabalhar como líderes”. Brant acrescenta que abriu mão da construção de um muro em volta da escola para que a comunidade visse o trabalho que estavam fazendo lá dentro e participassem. Com uma área disponível de 22 mil metros quadrados, a direção começou a investir nos esportes e encontrou um caminho para solucionar os conflitos constantes entre os alunos. Hoje eles são medalhistas dos Jogos Escolares e de sua própria olimpíada, disputando provas de atletismo, salto em distância, tênis, tênis de mesa, judô, peteca, handebol, futebol. Atualmente, está sendo construída uma quadra de areia para a prática do vôlei de praia, nos padrões internacionais.
Para inspirar os alunos quanto a seus ideais de sucesso, a direção procurou bons exemplos na casa. E os melhores vieram da paixão comum a tantos meninos, o futebol. Werley Ananias da Silva, zagueiro do Grêmio revelado nas categorias de base do Clube Atlético Mineiro, foi aluno da Doutor José Maria Lobato. O craque, de apenas 23 anos aceitou se tornar um dos parceiros da escola e tem sido uma presença constante nos fóruns de debate realizados duas vezes ao ano pela direção e em outros eventos.
Outro ex-futebolista que se tornou parceiro e modelo para meninos e meninos é o ex-aluno Alberto Valentim do Carmo Neto, eleito pela Revista Placar o melhor lateral-direito do Campeonato Brasileiro de 1996. No Brasil, o craque jogou pelo Guarani, Atlético Paranaense, São Paulo, Flamengo e Botafogo. Por nove anos ele atuou em gramados italianos, defendendo o escudo da Udinese e do Siena. Após encerrar a carreira em 2008 depois de uma rápida passagem pelo alvinegro carioca, Alberto especializou-se em gerência desportiva na Europa e hoje é assessor da presidência do Clube Atlético Paranaense, clube que projetou sua carreira. Mesmo distante, Valentim faz questão de contribuir para que os 1.325 alunos atendidos pela escola tenham as mesmas oportunidades que ele.

E com a ajuda de Alberto e tantos outros parceiros que a direção correu atrás, os alunos da escola estadual têm conseguido conhecer novos horizontes, ao participar de viagens de cunho educativo-cultural. Depois de levar seis ônibus para o Instituto Cultural Inhotim, localizado em Brumadinho, o próximo roteiro dos alunos será a tradicional Vesperata de Diamantina. Ainda este ano, a direção pretende levar os jovens para conhecer, também, o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.
Mas com quatro anos de tantas conquistas, a diretora da Escola Estadual Doutor José Maria Lobato sabe que o trabalho continua: “Os conflitos não deixaram de existir, os problemas continuam, mas é preciso mudar a maneira como encaramos isso. É preciso que haja equilíbrio a partir do que pensamos, falamos e como agimos”, encerra.
A diretora da Superintendência Regional de Ensino de Divinópolis, Vera Lúcia Soares Prado, chama a atenção para a forma como professores e comunidade foram envolvidos para que essa transformação tão drástica pudesse ser construída. “A direção reuniu os professores para cantar e eles realizaram serestas de porta em porta, arrecadando recursos e formando parceiros que até hoje apoiam a instituição em tantos projetos”, completa.
Atualmente, a unidade atende alunos do 6º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio. A escola conta com seis turmas no programa Educação em Tempo Integral, com a proposta de ampliação para 10 turmas no próximo ano. Os resultados também são observados no aspecto pedagógico. De um Ideb inferior a 2, hoje o índice da escola é 4,9, o que significa que a meta para 2021, estabelecida pelo MEC para a instituição, foi atingida nove anos antes.