De forma bastante prática, a professora Patrícia Vigilato vem mostrando que há pontes entre os conhecimentos escolares e os interesses dos estudantes, com os encontros do movimento escolar “Fala Miga”. Foi durante suas aulas de História para as turmas do Ensino Médio da Escola Estadual Sanico Teles, em Santa Rita do Sapucaí, no Território Sul de Minas Gerais, que ela sentiu a necessidade de realizar essa integração que discute e aborda assuntos relacionados ao meio feminino.
Com um espaço apenas voltado para elas, as alunas ficam livres para debater, discutir e até colaborar com os problemas abordados por elas nos encontros. “Sempre me interessei pela história das mulheres e entendo que a transformação social passa necessariamente por essa luta. Comecei a observar que algumas alunas sempre me procuravam para relatar situações vivenciadas por elas, em ambiente escolar ou não, ou sempre tinham perguntas sobre assuntos diversos, porém relacionados a questões femininas. Isso despertou em mim a vontade de criar um espaço onde, para além de orientá-las a lutarem pelas suas demandas, houvesse diálogo, apoio e interação. Fui procurar como poderia contribuir e foi aí que tudo começou”, conta Patrícia.

Foi sugerida à diretora da escola, Cristiane Murad, a realização de uma roda de conversa como ação do Dia Internacional da Mulher, celebrado no dia 8 de março. Para mediar essa reflexão, foi convidado o “Imagina juntas”, movimento feminista que surgiu da insatisfação e pela vontade de lutar pela igualdade de gênero em Santa Rita do Sapucaí. A roda de conversa “Fala Miga” teve repercussão positiva no ambiente escolar e deu origem ao “Coletivo Feminista Fala Miga”. A expressão “fala miga” está relacionada a forma de tratamento, muito comum, entre as amigas na comunidade escolar.
Desde então, as ações do coletivo, que conta com o apoio da coordenação pedagógica, vêm contribuindo para reflexões. A pauta se dá sempre em diálogo com as alunas e com a orientação da supervisora pedagógica Maria Rosemy Villela. A docente observa que as estudantes, por exemplo, chegam a mediar, sozinhas, situações e conflitos dentro da própria turma. E os ganhos, para Patrícia, são evidentes.
A ideia é que, futuramente, as ações também aconteçam no contraturno escolar, entre os turnos matutino e vespertino, para que possam aprofundar os momentos de formação. Em consenso, o “Fala Miga” é um espaço só para mulheres. O objetivo é um ter ambiente reservado para discutir pautas que dizem respeito às mulheres, embora vários homens se solidarizem com algumas delas.
Patrícia conta que o coletivo não se trata propriamente de um projeto, mas de uma ação permanente que ganhou adesão de cerca de 15 alunas regularmente frequentes nas atividades, além das que participam esporadicamente. “O coletivo é um lugar de novos conhecimentos e conscientização. Onde nos reunimos para trocarmos experiências, conversarmos e termos conhecimento sobre assédio, discriminação, silenciamento, entre outras situações que passamos por sermos mulheres. É um espaço importante de conversa que acaba virando um espaço de terapia, livre e seguro, cheio de empatia, que nos fazem sentir amadas e empoderadas”, relata uma das participantes do grupo Iasmin Sandy Caiado, aluna do 3º ano da escola.
De início, foram organizados três momentos de uma hora e meia cada em que foram colocadas informações sobre a luta histórica das mulheres, sobre machismo, autoestima e análise de casos. Ainda no mês de março, além da participação do movimento feminista “Imagina Juntas”, o Coletivo “Fala Miga” recebeu a médica ginecologista Tetzi Brandão para uma roda de conversa e, posteriormente, contou com a participação da psicóloga Ludimila Rocha para um diálogo sobre autoestima. Os encontros são abertos a todas as alunas da escola. Outro encontro realizado em abril abordou o tema “autoestima e beleza feminina”. O objetivo é que as ações do coletivo sejam cada vez mais solidificadas.
