Organizado pela Secretaria de Educação, evento reuniu estudantes, blogueiras e ativistas de movimentos feministas

No Dia Internacional da Mulher (08/03), data que simboliza a luta e a resistência feminina, jovens estudantes, blogueiras negras, representantes de movimentos feministas e mulheres de diferentes áreas de atuação participaram da Roda de Conversa ‘Educa e empodera as Minas’, realizada pela Secretaria de Estado de Educação, no Plug Minas. Norteado pelo tema ‘Jovens Meninas e as Violências de Gênero’, o encontro foi um momento para as participantes debaterem e refletirem, criticamente, sobre os avanços, desafios e as dificuldades que, apesar de toda a luta histórica das mulheres por igualdade e direitos, ainda hoje persistem em nossa sociedade.

Macaé Evaristo participa de evento no PlugMinas. Foto: Omar Freire/Imprensa MG

Mediada pela vice-presidenta do Sindicato dos Jornalistas, Alessandra Mello, a roda de conversa reuniu a Secretária de Educação, mestra em Educação pela UFMG e conselheira do Conselho Estadual da Mulher de Minas Gerais, Macaé Evaristo; a ex-ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (SEPPIR) e doutora em Antropologia pela USP, Nilma Lino Gomes; a pós-doutora em Sociologia pela UNICAMP e integrante do Observatório da Igualdade de Gênero e Interseccionalidades de Minas Gerais, Daniela Auad; a doutoranda em Ciência Política pela UFMG e ativista em Direitos Humanos do Movimento Negro, Márcia Maria Cruz; e a integrante do Coletivo Pretas em Movimento em BH, pedagoga, mestranda e cantora nas Artes Afro-brasileiras, Gilmara Souza.

As convidadas destacaram que o encontro unia-se à mobilização mundial de mulheres, ocorrida no dia 8, pela igualdade de oportunidades e direitos e pelo fim da violência contra a mulher. Elas lembraram que, em várias cidades brasileiras, as manifestantes estavam mobilizadas também contra as reformas trabalhista e da Previdência, que estabelece, entre outros pontos, o aumento da idade mínima de aposentadoria para as mulheres. “Não é apenas a violência física, mas também a simbólica e a institucional. Num cenário político de encurtamento e restrição de direitos, as mulheres são as primeiras a irem para a linha de frente serem pisoteadas. Temos que fazer essa discussão pensando as relações de poder, essas opressões diárias, nas nossas casas, na escola, no trabalho, na rua, para que a gente não aceite e seja capaz de denunciar qualquer tipo de violência”, afirmou Macaé Evaristo, no início do evento.

A secretária de Educação reforçou que a luta por igualdade de direitos deve ser constante. “Nós mulheres, em especial as negras, temos que estar em permanente estado de vigília, pois o machismo, o sexismo e o racismo são estruturantes da nossa sociedade. Como profissionais e estudantes, enfrentamos situações de violência, assédio, desrespeito à nossa identidade e, muitas vezes, não temos espaço para falarmos sobre esses casos, para nos fortalecermos coletivamente e para construirmos estratégias coletivas de luta”, ressaltou.

Para Nilma Lino, a roda de conversa marca um avanço e é resultado da luta feminina. “Na minha juventude, não tínhamos momentos como esse, em que nós, mulheres, nos reuníamos para falarmos sobre as nossas questões, a nossa condição e as nossas lutas”, lembrou ela. Segundo a ex-ministra, esse 8 de março, para o Brasil e para o mundo, é um dia para se olhar para as conquistas das mulheres. “Hoje podemos votar. Temos neste palco mulheres negras e brancas, mulheres negras professoras, ministras, jornalistas, ou seja, em lugares que eram majoritariamente ocupados pelos homens. Nós já mostramos para o mundo que podemos e temos o direito de estar em todo e qualquer espaço”, afirma.

Ela lembra que as mobilizações femininas também provocaram mudanças na estrutura do Estado brasileiro. “Pressionando pela construção de políticas públicas específicas para as mulheres, conseguimos criar o Ministério das Mulheres, que, lamentavelmente, foi extinto. Nos municípios e estados, secretarias e conselhos para as mulheres foram criados. A lei do feminícidio passou a fazer parte do código penal, pois nós levamos até o jurídico, executivo e legislativo toda a discussão da violência que sofremos”, exemplificou.

Daniela Auad destacou que o encontro é uma comprovação de que os governos democráticos populares em ação na última década promoveram efeitos na formação de muitas mulheres. “Universidades públicas foram criadas, coletivos feministas surgiram nesses lugares, influenciados pela presença de feministas nesses espaços de poder, como na SEPPIR”, disse. De acordo com Daniela, a perda de direitos aparece na invisibilização, nos xingamentos e na incitação ao ódio. “Contra isso, fundem ou ampliem os coletivos feministas nas escolas, nos bairros. Nós, juntas, somos mais fortes”, conclama.

Pluralidade

Debatendo o machismo, a violência, orientação sexual, identidade, equidade de direitos, entre outros assuntos, o encontro demonstrou a pluralidade do movimento feminista, presente também nas diversas formas de atuação das mulheres, como nas ruas, escolas e na Internet. “Com a rede e suas ferramentas, muitas mulheres deram visibilidade a uma série de discussões relevantes não vistas, por exemplo, nos meios de comunicação tradicionais. As mulheres negras estão representadas e podem dar voz às suas demandas em canais no youtube e nas redes sociais”, explica Márcia Maria Cruz, afirmando que, apesar da Internet ser um espaço empoderador, é importante levar as discussões da rede para as mulheres que não têm acesso à tecnologia, mas têm muito a ensinar aos movimentos.

Em sua fala, Gilmara Souza citou algumas situações para demonstrar como o machismo e racismo estão nos pequenos detalhes. “No meu prédio, localizado num bairro de classe média, temos apenas cinco famílias de negros. Certa vez, num ensaio do bloco em que participo, um dos integrantes não acreditou como eu, mulher, conseguia carregar e tocar o surdo”, relata. 

Walkiria Gabriele, autora do livro “Meu crespo, nossa história” , participa da roda de conversa. Foto: Omar Freire/Imprensa MG.                                                                                                                                                                   

A militante, poeta e escritora Walkiria Gabriele, autora do livro “Meu crespo, nossa história” e idealizadora da página “Cachos da Negra” deixou seu relato no encontro. “A mulher já nasce sofrendo, a vida derruba a gente de todas as formas e, quando eu encontro vocês, sinto uma força enorme. Eu trabalho e estudo a estética, a solidão da mulher negra, que é o que eu vivo diariamente, o racismo constante. O meu livro traz histórias de mulheres negras que, na minha infância, eu não tive oportunidade de ler sobre essas mulheres”, contou.

Lívia Teodoro, estudante de história e idealizadora do Blog Na Veia da Nêga, destacou a importância de mulheres negras assumirem lugares de poder. “Eu cresci vendo mulheres negras em espaços menores, no papel de empregada, e hoje, fico feliz de ver mulheres no ministério, em cargos de chefia e, também, discutindo empoderamento e questões específicas da mulher negra na Internet” afirma.