Iniciativa acontece há 4 anos e já participaram 288 estudantes de escola de Belo Horizonte
Quando se pensa em Brasil e Argentina, duas das principais nações da América do Sul, vem sempre à mente a rivalidade entre as seleções de futebol dos dois países, as comparações entre os ex-jogadores, Pelé e Maradona, e, atualmente, entre Neymar e Messi, destaques do Barcelona. No entanto, entre a Escola Estadual Cecília Meireles, localizada em Belo Horizonte, e a escola Nuevos Horizontes, situada na Patagônia Argentina, a rixa futebolística fica de escanteio e abre espaço para o projeto ‘Intercâmbio sobre Cartas e Vivências’. A iniciativa acontece entre os meses de março e dezembro e promove a interação entre os estudantes dos dois países por meio de mensagens escritas a mão.

Estimulando a troca de ideias, conhecimentos e experiências entre os alunos do Ensino Médio das duas instituições, o projeto, que teve início em 2013, é fruto de um intercâmbio e da amizade entre professores. “Quando era estudante da UFMG, fui para Argentina estudar e, até hoje, mantenho contato com os amigos de sala. Então, em visita à cidade de El Bolson, uma amiga professora me apresentou a outros profissionais e elaboramos o projeto”, conta Elaine Aparecida Alves, professora de Educação Física e responsável pela iniciativa na Escola Cecília Meireles.
Utilizando uma comunicação simples, a ação incentiva a prática da escrita e leitura, além de contribuir para a formação humana dos participantes. “Eles têm acesso a outra realidade, a um universo cultural que ultrapassa os muros da escola. Aprendem a elaborar uma carta, depositam seus sentimentos e emoções, compartilham valores de amizade e respeito”, afirma a professora.
Desde o início, o projeto já promoveu o intercâmbio de cartas entre 288 jovens. Na escola Cecília Meireles, participam, todos os anos, 48 estudantes voluntários. “Não é nada obrigatório. Eles são convidados pela professora e muitos já estão ansiosos para voltarem a escrever as cartas”, explica Carina Windsor, diretora da escola. Em 2015, o projeto também contou com a participação dos alunos do Colégio Condor Andino nº 734, do município El Hoyo, Província de Chubut, Argentina.
Reflexão crítica
Nas cartas, os estudantes relatam sobre a cidade em que vivem, sobre a família, sobre a relação com a escola, suas atividades de lazer preferidas, e têm a oportunidade de se reconhecerem e refletirem, criticamente, sobre a diversidade entre as duas sociedades. “A partir das diferentes realidades, eles fazem uma reflexão e auto-observação sobre os aspectos culturais, problemas sociais e a pluralidade humana”, destaca Elaine.
A professora acrescenta que a cidadania é abordada como elemento que compõe a identidade de cada indivíduo. “Este diálogo reflexivo esclarece o significado de valores sociais importantes para a formação do cidadão. Cada pessoa tem seus costumes, objetos e lugares que são importantes para si, que constituem sua identidade e representam a pluralidade”, ressalta.
Para Lilian Hote da Silva, estudante do 3º ano do Ensino Médio, a troca de cartas com dois alunos do Nuevos Horizontes permitiu que ela conhecesse a cultura de outro país. “Recebi um mapa com os principais pontos turísticos da cidade em que vivem, um panfleto com as comidas típicas, danças etc”, relata a garota, acrescentando que está muito ansiosa para o projeto começar este ano.
Apesar de todo o aparato tecnológico e das redes sociais que facilitam a comunicação entre as pessoas, a estudante do 3º ano do Ensino Médio, Ester de Souza, que participa da iniciativa há 3 anos, garante que as cartas provocam uma outra sensação. “No projeto, tive a experiência de escrever uma carta pela primeira vez, de contar mais aprofundadamente sobre a minha vida e conhecer pessoas que também gostam de vôlei e skate. Além disso, a expectativa de aguardar a resposta e indescritível, de pensar o que o outro pode achar da gente”, explica ela, acrescentando que só vê iniciativas como essas em escolas privadas.

Além das cartas, os estudantes também têm a oportunidade se conhecerem por videoconferências. “Uns usam fotos ou conversam pelas redes sociais. Eu prefiro esperar pela videoconferência para conhecer, ver o rosto da pessoa com quem compartilhei cartas e um pouquinho da minha história”, conta Beatriz Moreira, estudante do 2º ano do Ensino Médio.
Os alunos, durante o projeto, são acompanhados pela professora de Educação Física que os auxilia na escrita das mensagens e, também, na compreensão de algumas palavras em espanhol. “É um momento deles, então, ajudo pontualmente, não interferindo nem na maneira como escrevem e nem no que desejam compartilhar”, afirma a professora.
Segundo Elaine, a ideia é conseguir recursos para levar alguns alunos à Argentina e fazer um diário de viagem. “Quero que eles tenham a mesma experiência que tive com o intercâmbio, que possam conhecer outro país, cultura, ambiente, outros modos de vida. É algo que faz todo ser humano crescer como pessoa”, diz.