Projeto incentiva produção de textos dos alunos do sistema em parceria com a Academia de Letras do Brasil

Compondo a agenda da Semana de Educação para a Vida - momento de sistematização e divulgação de trabalhos já desenvolvidos pelas escolas que promovam e incentivem a participação social, política e econômica -, e coincidindo com o calendário do Mês da Consciência Negra, o Centro Socioeducativo de Justinópolis, em Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte, lançou, na terça-feira (22/11), o I Festival Literário, que vai até 15 de dezembro, com apresentação de danças, capoeira, leituras de poemas e jograis. O festival marcou também o início de um projeto, elaborado e executado em parceria entre secretarias de Estado de Educação (SEE) e de Segurança Pública (SESP) e a Academia de Letras do Brasil, de incentivo aos jovens do sistema para a produção de textos, músicas e poemas, que poderão ser reunidas em um livro.

De acordo com a superintendente de Modalidades e Temáticas Especiais de Ensino da Secretaria de Estado de educação (SEE), Iara Félix Viana, os trabalhos apresentados pelos estudantes chamaram a atenção porque “percebemos que, depois de uma formação, os professores do sistema socioeducativo entenderam a importância da Lei 10.639 (de 9 de janeiro de 2003, que estabelece que os estudos de história e cultura afro-brasileira devem ser ministrados no âmbito de todo o currículo escolar), e resultaram em muitos trabalhos com a temática de ativistas do movimento negro. Na oportunidade falamos sobre o que é o movimento da Afroconsciência e a importância em se pautar a temática durante todo o ano”.
Para Iara, o Festival Literário é um espaço para provocar a escrita dos estudantes, já que muitos não conseguem verbalizar seus sentimentos, desejos e suas ações. “Ali eles colocam no papel suas histórias, seus medos, angústias, sonhos, suas relações familiares.”
O evento aconteceu em dia de visitas, proporcionando aos familiares dos internos ativa participação nas apresentações dos resultados.

 Professores da Escola Estadual do Centro Socioeducativo de Justinópolis revisarão as produções, que serão enviadas para avaliação da Academia de Letras do Brasil. Os jovens participantes do Festival Literário podem se inscrever em uma das categorias: “Versos e Rimas”, “Poemas e Poesias” e “Histórias”. Ao final da disputa, cada grupo terá três premiados.

De acordo com a diretora de Atendimento do Centro Socioeducativo de Justinópolis e idealizadora do projeto, Isabella Moreira, a ideia é que o incentivo à leitura, à escrita e à produção literária seja uma via de responsabilização dos adolescentes e, também, uma possibilidade de carreira para eles. “É o primeiro festival literário no Brasil que acontece dentro de um ambiente de privação de liberdade, voltado para esse público. Esses jovens são muito criativos. Se pelo menos um deles prosseguir nesse caminho da escrita, todo nosso trabalho e incentivo à produção já terá valido a pena”, contou Isabela.

João Lucas, 16 anos, viu no projeto uma possibilidade de participar mais de atividades na unidade. “Eu gosto de escrever músicas e é muito bacana ter a ajuda dos professores na hora de colocar as ideias no papel”. Seu trabalho fala da realidade de ostentação que vivia “no mundo” fora da privação de liberdade. “Espero que minha música possa ajudar alguém de alguma forma. Hoje eu sei que o crime não compensa e que a gente precisa acreditar nos nossos sonhos e nunca desistir deles”, conclui.

Maurício Lima, 17 anos, acredita que as oficinas ajudam na evolução de como pensar a vida. “Eu gosto de escrever poemas. Sempre falo sobre a vida no crime. Ter a vida privada de liberdade é muito ruim e eu tento escrever mostrando que vale a pena querer crescer através do estudo e do trabalho. Ser alguém na vida”.

Além dos adolescentes internos, servidores, familiares, agentes do poder judiciário e parceiros dos programas que acompanham as medidas socioeducativas também estão participando do Festival. A diferença é que eles não frequentam as oficinas de produção. “Os demais participantes fazem seus próprios textos e entregam para avaliação. Existe uma comissão que organiza e reúne esse material, entregando para a avaliação da Academia de Letras do Brasil”, explicou Isabela.

De acordo com Marinete Machado Azeredo, diretora da escola, o Festival Literário só foi possível, "porque em 2014 os professores da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio visualizaram o potencial da escrita dos alunos privados de liberdade e a partir daí a equipe da escola desenvolveu um projeto de elaboração de textos. Foi pensado num projeto amplo que teria como uma de suas fases o Festival Literário, mas que é um projeto maior, tendo como produto a produção de textos possibilitando a confecção de um livro, que os permite mostrar de forma literária os seus sonhos e anseios".

O diretor geral da unidade socioeducativa, Cosme Alves Damião, acredita que o projeto literário veio para marcar a história dos nove anos da unidade. Para ele, o incentivo à leitura, à arte e à educação é principal caminho para a ressocialização. “A gente percebe quando os jovens se envolvem nessas atividades e como há uma mudança de comportamento e vontade de construir uma nova história ao sair da privação de liberdade”.

Internacional

O presidente da Academia de Letras do Brasil, seção Minas Gerais, Helbert Pitorra, disse que a instituição viu na medida de privação de liberdade uma oportunidade de viabilizar oportunidades para que o jovem internado possa alçar novos voos através da escrita, literatura e expressão das ideias.

A Academia é parceira do Museu do Louvre, em Paris, e a expectativa é compilar o material produzido no Festival para uma exposição no museu francês, ano que vem. “Nós acreditamos, enquanto acadêmicos, que qualquer transformação só é possível pela via da educação”, concluiu Helbert.