Educadores e gestores da Educação básica participam de seminário sobre as influências de línguas africanas na formação do estado brasileiro
Professores e gestores da educação básica de Minas Gerais participaram na manhã desta segunda-feira (07/11) da abertura da IV Jornada do Centro de Estudos Africanos (CEA/UFMG) e do VI Siala – Seminário Internacional Acolhendo as Línguas Africanas, sob o tema “Africanias: linguagens, culturas, histórias”. Os encontros acontecem até o dia 09/11 e fazem parte do parte do calendário de eventos do Mês da Consciência Negra.
Compuseram a mesa de abertura a professora Leda Maria Martins, representando o Reitor da UFMG, professor Jaime Arturo Ramírez, e a vice-reitora, professora Sandra Goulart de Almeida; a superintendente de modalidades e temáticas especiais da Secretaria de Estado de educação (SEE), Iara Félix Viana; o secretário de Cultura de Minas Gerais, Ângelo Oswaldo de Araújo Santos; o diretor de Relações Internacionais da UFMG, professor Fábio Alves; e a coordenadora do 6º sala e da 4ª Jornada do Centro de Estudos Africanos, professora Vanicléia Silva Santos.

Criado pela pesquisadora baiana Yeda Pessoa de Castro, considerada a maior conhecedora das línguas africanas em contato com a língua portuguesa no território brasileiro, o seminário internacional foi realizado em cinco edições bienais em Salvador, Bahia, no Campus da Universidade Estadual da Bahia. Em 2014, decidiu-se por deslocar o evento para outra cidade e a UFMG se ofereceu para recepcioná-lo. No âmbito da IV Jornada, o propósito é dar visibilidade ao Centro de Estudos Africanos (CEA/UFMG), estreitando laços com outros centros de estudos africanos do Brasil.
A proposta é que o Siala se configure como vitrine dos trabalhos de pesquisa e extensão das instituições brasileiras em torno das línguas, culturas e literaturas africanas e seus desdobramentos nas Américas. Nesta edição, o tema escolhido é “Africanias: linguagens, culturas, histórias”, que busca levar à população brasileira a riqueza resultante de intensos e prolongados contatos linguísticos e culturais entre africanos, indígenas e europeus, nas Américas, a partir do século XVI até o XIX.
Os eventos proporcionam a discussão e a compreensão de saberes nesses cinco séculos de formação da cultura da sociedade e do povo brasileiro. Dentre os “repertórios trazidos para as Américas - técnicos, científicos, filosóficos, artísticos, linguísticos, literários, textuais, musicais e religiosos -, os congados, que na verdade são reinados, têm grande contribuição no universo do Brasil dos saberes africanos”, explica a diretora de Ação Cultural da UFMG, professora Leda Maria Martins.
Na ocasião, foi homenageada Dona Isabel Casimira das Dores Gasparino, Rainha Conga de Minas Gerais, Rainha Conga das Guardas de Moçambique e de Congo Treze de Maio, falecida em 2015. Sua filha, Isabel Casimira Gasparino, atual Rainha do Congo, da Guarda de Moçambique Treze de Maio de N.S. do Rosário, do bairro Concórdia, em Belo Horizonte, e rainha do Congo no Estado de Minas Gerais, recebeu uma placa das mãos da professora Leda Martins, diretora de Ação Cultural da UFMG.
Educação básica
A pesquisadora Yeda Pessoa de Castro falou da importância em se tratar dessas influências linguísticas fora da universidade. “Os acadêmicos sabem de tudo. Isso precisa ser tratado na Educação Básica. Essa é a juventude que vai repensar e ver quanta coisa falta para completar aquilo que chamamos de cultura brasileira e o português no Brasil, dando voz aos povos africanos nessa história”.
Segundo Yeda, há muito a se fazer, mas muita coisa precisa ser revista, entre as quais a impressão de que os africanos que chegaram às Américas eram mudos, tinham linguagens desconexas e que todos eram escravos. “A escravidão não é condição biológica, de genética, e sim uma circunstância, e isso precisa ser reafirmado. E a linguagem é um ponto de partida. Quando se mata uma língua, se mata uma civilização”, atesta.

A pesquisadora reforça a convicção sobre a necessidade de se começar a mostrar “nas salas de aula” que o português que falamos está recheado de línguas africanas. Segundo Yeda, usamos diariamente expressões africanas, sem saber dessas origens. Ela exemplifica: “caçula é uma expressão trazida para a família como o filho mais novo, que no português original era benjamim. Benjamim hoje se tornou ponto de conexão de energia elétrica. Babá é a ama seca, a mãe preta, do tempo da escravidão. Outro exemplo é a música ‘Os Escravos de Jó, jogavam o canxangá’ – Jó significa casa, e canxagá, jogo de tabuleiro. Zambelê, que depois se tornou Zé Pereira em algumas regiões, é, na linguagem quimbundo de Angola, escravo de um senhor”.
Representando a secretária de Educação, Macaé Evaristo, a superintendente de Modalidades e Temáticas Especiais de Ensino, da Secretaria de Estado de Educação (SEE), Iara Félix Viana, destacou a importância de os profissionais da Educação Básica participarem de eventos “como o de hoje” e estar em sintonia com as instituições de ensino superior no sentido de as linguagens de origem africana sejam trabalhadas nas escolas estaduais, sob a ótica da educação para relações étnico-raciais. “Nossos estudantes negros e negras se evadem com maior intensidade das unidades escolares pelo preconceito, pelo racismo institucional. Por isso essa temática precisa estar na ponta, com os professores”.
Segundo Iara, desde que foi lançada a campanha Afroconsciência, em 23 de março de 2015, observa-se um crescente envolvimento das comunidades escolares, tanto em discussões e projetos, quanto de aproximação dos núcleos de estudos afrobrasilerios existentes nas unidades de ensino superior. Várias prefeituras criaram seus núcleos ou conselhos municipais sobre a temática e a efetiva aproximação dos movimentos sociais negros à Educação Básica.

Afroconsciência
A Secretaria de Estado de Educação lançou no início de 2015 a Campanha Afroconsciência com o objetivo de fomentar, por meio de diferentes iniciativas, ações nas escolas para a superação do preconceito racial, na busca pelo reconhecimento e valorização da história e da cultura afrobrasileira.
A base da Campanha Afroconsciência é a Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afrobrasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares no Brasil. De acordo com o texto da lei, os estudos de história e cultura afro-brasileira devem ser ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, de forma a destacar a contribuição dos africanos e afrobrasileiros nas áreas social, econômica e política brasileiras.
A implementação da Lei 10.639 significa uma ruptura na estrutura curricular da Educação Básica promovendo o reconhecimento das diferentes trajetórias históricas que resultaram do processo de formação nacional brasileiro. Outra mudança ocorrida a partir da aprovação dessa Lei foi a inclusão, no calendário escolar, do Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro.