Na terceira matéria da série sobre o Dia do Professor, mostramos o exemplo do Leonardo de Almeida, professor de oficina de percussão que ensina sobre diversidade cultural e desenvolve habilidades com os alunos


Congado, maracatu, baião, samba, maculelê, samba reggae. Estes são estilos musicais que podem parecer diferentes para alguns. Mas são eles o conteúdo das aulas de Leonardo Lana de Almeida, professor de oficina de percussão das ações de Educação Integral na Escola Estadual Celso Machado, no bairro Milionários, em Belo Horizonte. Leonardo começou a trabalhar na escola no início deste ano e desde então desenvolve as oficinas com quatro turmas de 25 alunos do 6º ao 9º ano.

Licenciado em Música, Leonardo começou seu trabalho em escolas por meio de projetos educativos da iniciativa privada. Em fevereiro, candidatou-se à designação e foi chamado para as aulas do contraturno da Escola Estadual Celso Machado. “Nas escolas, as pessoas costumam entender que o que vamos trabalhar nas aulas de música é a ‘fanfarra’. Mas o meu trabalho vai além: procuro oferecer os vários ritmos da cultura popular brasileira”, explica ele.

As expressões tão diversas da cultura musical do Brasil são, na maioria das vezes, uma grande novidade para os alunos. Mas, para o professor Leonardo, isso não é um problema. “Mesmo que muitos não conheçam outros ritmos musicais, a gente se surpreende quando traz essas referências para a turma e sempre há um ou outro que diz já conhecer algum ritmo. E, à medida que vamos trabalhando, esses que já conhecem querem conhecer mais. E os que não conhecem, querem aprender”, conta Leonardo.

Para o professor, é normal que os alunos estejam mais familiarizados com gêneros musicais como o funk ou o sertanejo, pois estes são disseminados em massa pela mídia: “Esses são ritmos populares que fazem parte da realidade destes alunos. E, por isso, eu procuro mostrar para eles a história e o contexto desses ritmos. Mostro que o funk, por exemplo, nasceu nos EUA e se popularizou no Brasil nos anos 90. E tento mostrar também como esse ritmo mudou, tanto na batida quanto no comportamento”. Sobre o funk produzido hoje, Leonardo mostrou para os alunos algo que poucos percebem: as suas origens africanas e indígenas. “Assisti com os alunos um vídeo de dança ‘maculelê’ (ritmo popular surgido na Bahia) e perguntei se reconheciam. E aí eles entenderam que o ritmo do funk de hoje é muito parecido com o ritmo do maculelê”.

Leonardo explica que suas aulas são uma oportunidade de trocas de experiências entre os alunos. Por meio do debate e da prática musical, os preconceitos começam a se deteriorar. Durante suas aulas, ao explicar sobre os ritmos populares, dois alunos declararam abertamente serem praticantes do candomblé e da umbanda. “Isso era uma coisa que não acontecia há pouco tempo atrás. Os alunos não se sentiriam à vontade para confessar sua fé, teriam vergonha e poderiam até sofrer bullying dos colegas, que são de maioria cristã protestante ou católicos”, comenta o professor. Ao contrário do estigma e das polêmicas religiosas que um debate como esse poderia trazer em outras situações, Leonardo conta que os alunos se entenderam da forma mais madura possível: “Um ou outro deu uma risadinha, mas não foi preciso nem a minha intervenção. Os próprios alunos se colocaram e entenderam que suas diferentes religiões se identificam no amor”.

IMG-20161013-WA0002

 

Desenvolvimento cognitivo

Além das questões culturais e sociais possíveis de serem trabalhadas com os alunos a partir do ensino musical, Leonardo destaca que a música é também um importante instrumento para o desenvolvimento cognitivo. “Com a música, a criança desenvolve outros aspectos da inteligência. E ainda desenvolve habilidades como o trabalho em equipe, a disciplina, a cooperação, a coletividade”, relata. O professor explica que de todos os seus alunos, desde o início do ano até hoje, já é notório que muitos, mesmo sem nunca antes terem tido contato com os instrumentos e com a linguagem da percussão, já conseguem entender essa linguagem, reproduzir e ter autonomia. Outros, que talvez não tenham a mesma desenvoltura por já terem suas dificuldades individuais, também estão se desenvolvendo em seu próprio ritmo, se esforçam e aceitam o aprendizado. “É um desafio conseguir trabalhar tudo o que gostaria em um horário de apenas 50 minutos. E cabe à escola dar continuidade ao trabalho para que os alunos consigam continuar a se desenvolver”, explica ele.

Como encerramento da oficina de percussão, Leonardo prepara com os alunos uma apresentação final para a Semana da Consciência Negra. “Como estamos trabalhando uma linguagem artística, o objetivo do artista é se apresentar. Os alunos criam uma expectativa, ficam ansiosos, com dor de barriga. Mas isso faz parte do processo, é gostoso, eles também nos trazem um retorno bacana, como um sorriso no rosto”, conta, com orgulho, o professor Leonardo.