Primeira matéria da série especial do Dia do Professor mostra a história de Itamar Krenak, um professor a serviço da preservação das tradições e conhecimentos de seu povo

Para celebrar o Dia do Professor, comemorado no dia 15 de outubro, a Secretaria de Estado de Educação irá publicar ao longo desta semana uma série de matérias contando um pouquinho da história de educadores da rede estadual de ensino. São professores que atuam no Ensino Fundamental e no Ensino Médio, na Educação Quilombola, na Educação Integral e na Educação Inclusiva. Hoje será apresentada um pouco da trajetória do professor e coordenador das escolas indígenas da reserva Krenak, no Parque Estadual do Rio Doce, Itamar Krenak.

Entre os pioneiros na constituição da Educação Indígena em Minas Gerais, Itamar Krenak lembra seus primeiros anos de alfabetização, quando andava diariamente 14 quilômetros na ida e volta para a escola, na cidade de Resplendor, região Leste de Minas. “Não havia escola na aldeia e nem transporte escolar, os conteúdos das matérias mencionavam os povos indígenas a partir de uma visão do colonizador”, conta Itamar.

Pioneiro, Itamar coordena as escolas das aldeias Krenak do Parque Estadual do Rio Doce. Foto: Arquivo Pessoal

Depois de formar-se no Magistério, em 2006, Itamar, juntamente com Maurício, Marcos, Osmar e José Carlos, da etnia Krenak, participou dos primeiros passos rumo à formação de professores indígenas, no Parque Estadual do Rio Doce. Especializou-se em Educação Indígena, através de curso resultado de parceria entre a Secretaria de Estado de Educação (SEE) e a Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FAE/UFMG). “A partir dessa formação, passamos a lecionar o ensino regular, acrescido dos princípios de resgate e preservação de nossa história, cultura e língua. Nossas escolas, no princípio, eram à sombra de árvores e mesmo quando passamos a contar com salas de aula, eram tão precárias que os próprios pais das crianças indígenas relutavam e muitos preferiam enviá-los à escola na cidade”, relata.

As oportunidades de hoje são bem melhores, reconhece o professor, “as crianças e jovens indígenas têm suas próprias escolas, dispõem de material didático específico, em complemento ao tradicional, e contam com transporte escolar para levá-los das aldeias mais distantes às salas de aula”. A Escola Estadual da Reserva Krenak tem hoje três pontos estratégicos dentro da reserva, de forma a facilitar o acesso. Oferece educação infantil e fundamental a 40 crianças e jovens da reserva. Itamar Krenak é o coordenador das escolas em seu território. “O território é muito extenso e a escolha dos pontos das unidades de ensino foram resultado de ampla discussão nas comunidades indígenas”, explica o professor.

As crianças pequenas também têm espaço na escola. Segundo Itamar, é uma forma de apresentá-los ao espaço escolar e introduzi-los, desde cedo, na valorização da cultura de seu povo: “Assim eles já vão se acostumando com a escola”. A metodologia, além das áreas de conhecimento da escola regular, inclui uso do território, língua e história dos povos Krenak, com dinâmicas elaboradas a partir de jogos, música, e materiais específicos, alguns construídos no próprio processo pedagógico.

Educação Indígena reforça a identidade cultural dos povos. Foto: Arquivo pessoal

Na avaliação de Itamar, a Escola Indígena teve um papel importante no fortalecimento da organização de seu povo e na afirmação de sua identidade. Muitos já se formaram, saíram da aldeia, cursaram universidade e retornaram para dar sua contribuição aos que ficaram. Para o professor, a introdução dos três pilares da Educação Indígena (uso do território, língua e história), na grade curricular, reforçou também o compromisso de cada um dos estudantes com seus povos e seu território: “Anteriormente, a maior parte dos jovens estudava com o intento de ir para a cidade e se integrar à cultura das metrópoles. Hoje podemos ver um caminho inverso. Ao retornar à aldeia, os jovens unem seus saberes acadêmicos com os da nossa cultura tradicional, fortalecendo seus laços e trazendo grandes benefícios para toda a comunidade indígena”, aponta Itamar Krenak.

Atendimento

Minas Gerais conta com, aproximadamente, 4.200 alunos indígenas das etnias Kaxixó, Krenak, Maxakali, Pataxó, Pankararu, Xacriabá, Xucuru-Kariri e Mokurin. O Estado tem 17 escolas indígenas e duas turmas vinculadas a escolas não indígenas. O atendimento escolar indígena é feito em 64 endereços. As escolas estão localizadas em 11 municípios.

Considerando que as comunidades indígenas possuem cultura, história e especificidades que devem ser contempladas nas políticas públicas de educação, a Secretaria de Estado de Educação vem discutindo com representantes dessas comunidades a criação de condições para que elas sejam protagonistas de suas pedagogias. Assim, para construir estas políticas, são realizados encontros para definir diagnósticos e traçar diretrizes. A partir dessa premissa, foi criada a Comissão Estadual de Educação Escolar Indígena de Minas Gerais (CEEEI), definida pela Resolução SEE/MG Nº 2.809, de 12 de novembro de 2015.

Minas Gerais conta com, aproximadamente, 4.200 alunos indígenas das etnias Kaxixó, Krenak, Maxakali, Pataxó, Pankararu, Xacriabá, Xucuru-Kariri e Mokurin. Foto: Arquivo ACS-SEE

A comissão reúne lideranças das comunidades indígenas do Estado, além de representantes de órgãos governamentais, como UFMG, UEMG, Funai e SEE. É um órgão colegiado de caráter consultivo. O grupo tem papel de assessorar e monitorar a Secretaria na formulação e execução de políticas para a educação escolar indígena. Uma das atribuições principais foi criação das categorias Escola Indígena e Professor Indígena, fundamentais para a demarcação da especificidade da Educação destinada a estes povos.

A Secretaria traçou diagnóstico da situação das escolas indígenas e vem trabalhando para ampliar os investimentos em melhoria na infraestrutura dessas unidades escolares e estratégias para estimular as escolas a desenvolverem projetos para a efetiva implementação da Lei Nº 11.645, que torna obrigatório o ensino da História e Cultura Indígena.

“Quero saudar, nesta semana do professor, os educadores indígenas e destacar sua importância na formação e na preservação da cultura de seus povos. Ao mesmo tempo reafirmar o nosso compromisso com a educação escolar indígena, com o fortalecimento das escolas indígenas e da educação em cada uma das comunidades. Lembrando sempre que quando a gente fala do direito à educação, ele não está separado dos outros direitos. A escola indígena dialoga com todas as formas de organização, de cultura e com as outras formas de sobrevivência”, declarou a secretária de Estado de Educação, Macaé Evaristo.