Dividido em três módulos, a formação teve início em julho de 2015
Iniciado em julho de 2015, o curso de Magistério Indígena Xacriabá formará uma turma em dezembro. São 80 alunos/professores, que atuam no Ensino Fundamental e Médio. Eles encerraram, em 30 de julho, o último módulo do curso, ministrado na Escola Estadual Bukimujú, na Aldeia Brejo Mata Fome, em São João das Missões (SRE-Januária).
Voltado para a realidade do povo e das escolas indígenas, o curso, que tem duração de um ano e meio, é dividido em três módulos: Terra e Território e Direito Indígenas; Múltiplas Linguagens e Língua Indígena; e Pedagogia Indígena.
Nesta última etapa, os alunos/professores estudaram conhecimentos tradicionais indígenas; metodologia e pedagogias da educação escolar indígena, produção de material didático e inclusão de alunos com necessidades especiais.

Foram três semanas de trocas de experiências, visitas, passeios e oficinas, com orientação de professores tutores, que passaram pela formação intercultural indígena, na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FAE/MG).
De acordo com Célia Xacriabá, da coordenação de Educação Escolar Indígena da Secretaria de Estado de Educação (SEE), foram diversas atividades envolvendo história e memória, síntese de manejo e uso do território, denominado Calendário Sociocultural. Foram ouvidos diversos atores das comunidades próximas e muita troca de experiências das práticas e culturas indígenas nas mais variadas formas.
Atividades
Segundo a pedagoga Fernanda Xacriabá, da Escola Estadual Bukinuk e Coordenadora do Magistério indígena na escola Bukimujú, foram ricas experiências e muito aprendizado. “Num primeiro momento tivemos a oportunidade de socializar percursos acadêmicos, onde alunos recém-formados na área de Línguas, Artes e Literatura (LAL) apresentaram seus trabalhos e falaram do processo de desenvolvimento de suas pesquisas”.
Para esclarecer dúvidas sobre leis, decretos e resoluções que tratam do Atendimento Educacional Especializado nas Escolas Indígenas e de suas experiências, a Analista da SRE/Januária, Fátima Lisboa e professores das Salas de Recursos e Apoio realizaram roda de conversas com os estudantes/professores.

Os trabalhos de campo, além do caráter pedagógico, possibilitaram visitas à história e tradição dos povos Xacriabá e seus ancestrais, com narrativas dos próprios líderes indígenas, caciques, educadores locais e habitantes mais antigos das comunidades.
Ao visitarem o banco de sementes, na Aldeia Vargens, puderam conhecer a história do projeto de resgate de sementes que eram utilizadas na agricultura pelos antepassados. Foram recebidos na mini casa de cultura, onde as professoras Dona Dalzira e Dona Zelina, explicaram todo o processo de fabricação de sabão, desde a seleção e coleta de frutos até o modo de preparo.
A conclusão dessa jornada foi na Casa da Medicina Tradicional Xacriabá (CAMETXA), e na cozinha experimental, ambas na Aldeia Barreiro Preto. Representante da Aldeia, Valdemar Xacriabá (Valdim), falou sobre os cuidados no processo de produção de remédios e sobre os disponíveis na farmácia. Apresentou a cozinha experimental e despolpadora de frutas.
Na última semana, Kanátyo Pataxó e seu filho Siwê Pataxó apresentaram metodologias de alfabetização e aprendizado, através de canto, musicas, jogos e brincadeiras, utilizadas com seus povos, e produziram com os professores/alunos, trabalhos a serem aplicados em todas as disciplinas, com composições musicais próprias, que é uma experiência do Calendário Sociocultural.
Encerrando o módulo, foi oferecida a oficina de cerâmica, sob coordenação dos ceramistas e Professor de Artes Vanginey Xakriabá, e as Professoras de Cultura Laurinnha e Dalzira, e a Dona Zelina, que transmitiram técnicas de preparação do barro, modelagens, acabamentos, pinturas e queima de peças.

De acordo com os ceramistas, as crianças observam e atuam no mundo com curiosidade, sem padrões definidos. É uma forma, através de trabalhos com o barro, de valorizar iniciativas investigativas e descobertas, além de proporcionar ambientes e materiais próprios, onde esses pequenos tenham oportunidades de entender e recriar o mundo à sua maneira.
Curso é dividido em eixos e intermódulos
São três eixos com três intermódulos, durante um ano e meio de curso
Segundo a Coordenadora do Magistério Indígena Fernanda Xacriabá, o curso com duração de um ano e meio, foi dividido em eixos pedagógicos e três intermódulos.
O eixo, Terra e Território e Direitos Indígenas, é composto das disciplinas: Uso do Território; História e Memória, Direitos e Movimentos Indígenas; Sociedade e Culturas Indígenas; Ciências e Manejo do território.
O segundo eixo, Múltiplas Linguagens e Língua Indígena, abrange as disciplinas de Língua Portuguesa, Alfabetização e Letramento; Artes e Literatura Indígena; Multimeios e Audiovisual e Matemática e Numeramento.
O terceiro eixo trata de Pedagogia Indígena: Conhecimentos Tradicionais Indígenas; Metodologia e Pedagogias da Educação Escolar Indígena; Produção de Material Didático; e Inclusão e Necessidades Especiais.

Dos três intermódulos que compõem a conclusão do curso, o primeiro, foi composto por disciplinas propostas por professores instrutores e o segundo, com a escola e Comissão Estadual de Educação Escolar Indígena, como colaboração nas discussões do Plano de Carreira de Professores Indígenas. Os alunos participaram sob orientação de lideranças e de Caciques.
O terceiro módulo previsto para outubro, oferecerá disciplinas: História e Memória; Síntese de Manejo e uso do Território.
Educação Indígena
A educação trabalhada nos moldes indígenas acontece entre os Kaxixó, Krenak, Maxakali, Pankarau, Pataxó, Xacriabá e Xucuru-Kariri. Sãos mais de 4.650 estudantes indígenas, num universo de 2,4 milhões de alunos na rede estadual de ensino. Desse total, mais de 4 mil estudantes têm acesso a uma pedagogia de ensino diferenciada ofertada pelo estado, exclusiva para escolas indígenas.
Povos que apresentam uma forte identidade cultural, os indígenas se distribuem em vários povos no estado de Minas Gerais. Kaxixó, Krenak, Maxakali, Pankararu, Pataxó, Xacriabá e Xucuru-Kariri.
Em toda Minas Gerais estão presentes 17 escolas indígenas, mas a maioria delas possui várias unidades escolares, fazendo com que este número chegue a 64. Essa abrangência facilita o atendimento dos alunos, sem grandes deslocamentos para os mesmos. Em relação ao ensino, as escolas atendem em sua maioria alunos do ensino fundamental. O ensino médio estando presente nos povos Xacriabá e Pataxó.
A criação das escolas indígenas tem como base a Constituição de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (9.394 de 20/12/1996) que prevêem o atendimento específico e diferenciado aos povos indígenas. A luta dos povos indígenas para ter esse direito, foi fundamental na construção da politica de educação Escolar Indígena nos Estado de Minas Gerais.