‘A Bonequinha Preta’ se mostra atemporal quando o assunto é o processo de iniciação da leitura e escrita nas escolas

Olhares curiosos e mentes inquietas. A professora chega na sala de aula trazendo um objeto diferente. A caixa vermelha, com um grande laço branco, chama a atenção dos alunos. Uma roda é formada e dois estudantes são escolhidos para abrir a caixa. Quando o objeto é aberto, a surpresa. Lá dentro estavam um livro e uma bonequinha preta.  A partir da revelação do conteúdo, tem início uma viagem mágica pelos medos e anseios de Mariazinha, personagem principal do livro ‘A Bonequinha Preta’. A obra é de autoria da mineira Alaíde Lisboa que, se estivesse viva, completaria 109 anos nesta segunda-feira (22-04).

“Quando a tia trouxe a caixa eu e meus colegas ficamos muito curiosos. Ficamos imaginando o que teria dentro dela. Cheguei até a achar que seria um espelho. Quando ela abriu a caixa ficamos todos muito surpresos e quando ela contou a história da bonequinha ficamos encantados”,conta a estudante do 2º ano do ensino fundamental da Escola Estadual Menino Jesus de Praga, em Caratinga , Mical Calazans Cunha.

Na Escola Estadual Menino Jesus de Praga, educadores apostam no lúdico para discutir o livro da 'Bonequinha Preta'. Foto: Arquivo Escola

Na escola, depois de despertar a curiosidade dos estudantes tem início a discussão sobre o livro. “Aqui na escola, utilizamos o livro quando o aluno está aprendendo a ler e, além da contação da história, estimulamos a discussão de diferentes temas. Falamos um pouco sobre a autora, sobre os traços da boneca e iniciamos aí um bate papo sobre a questão racial, obediência e respeito ao próximo”, afirma a professora eventual, Maria Laurieves Miranda de Souza.

Há mais de sete décadas o livro da autora mineira é considerado um instrumento pedagógico para professores que atuam nos anos iniciais do ensino fundamental. Escrito em 1938, a publicação já auxiliou na alfabetização de mais de três gerações de alunos mineiros. Há dois anos, a obra também ganhou destaque na Escola Estadual Professor Wilson de Melo Guimarães, em Pará de Minas. 

“Os alunos lêem o livro e depois fazem o registro da história. Com isso trabalhamos com eles não só a leitura, mas também a escrita. Aqui, ‘A Bonequinha Preta’ é um dos nossos instrumentos de alfabetização. Como culminância do trabalho, os estudantes trazem suas bonecas e fazemos uma grande festa de aniversário para a bonequinha”, ressalta a supervisora da escola, Maria Raimunda da Consolação Teixeira.

Como culminância do trabalho com o livro, alunos fazem uma grande festa na Escola Estadual Professor Wilson de Melo Guimarães. Foto: Arquivo Escola

O lúdico na alfabetização

Transformar a leitura em um momento lúdico tem feito com que a estudante do 1º ano do ensino fundamental goste cada vez mais da pratica. “Tem pouco tempo que aprendi a ler, mas já gosto muito. Do livro da bonequinha gostei da Mariazinha, porque ela cuida da bonequinha e é amiga”, afirma Letícia Emanuelle Santos Gonçalves.

A professora aposentada da Faculdade de Letras, da Universidade Federal de Minas Gerais, e especialista em literatura infantil, Maria Antonieta Pereira, destaca as características do livro que facilitam no processo de alfabetização. “Certamente 'A Bonequinha Preta' é uma obra de referência da literatura brasileira destinada às crianças, pois constitui uma história ao mesmo tempo simples e comovente, antiga e contemporânea, triste e alegre, com percalços e boas soluções, envolvendo afetos positivos e ensinamentos de grande valia na atualidade”, afirma.

A especialista ressalta ainda que ‘A Bonequinha Preta’ pode ser utilizado para fomentar diferentes discussões em sala de aula. “O fato de a Bonequinha ser preta pode auxiliar no debate sobre os preconceitos raciais no Brasil. Na época, a presença da personagem deve ter dado alento a todos aqueles que sofriam com as discriminações típicas de nossa cultura e incentivado reflexões a respeito disso. E o mais interessante é que a Bonequinha não surge como uma personagem forte, revindicativa, que luta por seus direitos. Pelo contrário, ela é perfeitamente feliz junto à sua amiga Mariazinha e todos os seus desejos e gestos são de uma criança comum que sente alegria, saudade, tristeza; que supera dificuldades; que se surpreende com a vida e com os outros. Bonequinha é uma figura muito feminina, doce, alegre e esperta. Pensemos no leitor da época se deliciando com suas peripécias... Imaginemos como isso marcou sua personalidade e o preparou para os avanços étnicos de nosso tempo”.

Na Escola Estadual Professor Magalhães Drummond, alunos desenvolveram diferentes trabalhos a partir da leitura do livro. Foto: Arquivo Escola

Em 2012, a estudante Kathlen Lorrayne Fernandes da Silva, participou de um projeto da escola no qual, além de ler produziu diferentes trabalhos de artes. A aluna do 5º ano do ensino fundamental, da Escola Estadual Professor Magalhães Drummond, em Belo Horizonte, conta o que aprendeu com o livro. “Achei o livro muito legal, porque ele ensinava sobre a desobediência e racismo. Também aprendi a ler algumas palavras que não conhecia. Quando eu tava lendo o livro, pintei um quadro e produzi um livro com meus colegas”.

A professora de Kathlen, Magda Paola da Silva Santos, destaca que a escola sempre desenvolve projetos com os livros da Alaíde Lisboa. ‘O Bonequinho Doce’ e ‘A Bonequinha Preta’ são algumas das obras mais trabalhadas. “Acho impressionante a forma lúdica como ela conta a história. Além disso, quando vamos pegando os detalhes e as particularidades, a história toma outro sentido. Os livros da autora encantam desde o aluno que está aprendendo a ler até os idosos”.

Bonequinha Preta

Primeiro livro de Alaíde Lisboa, ‘A Bonequinha Preta’ foi escrito durante um exercício de um curso de aperfeiçoamento do qual a educadora participava. Segundo Maria Lisboa, filha da escritora, o livro é composto por todos os elementos que Alaíde Lisboa acredita que deveriam existir em uma publicação infantil.

“Ela sempre defendeu que as histórias infantis deveriam ter uma linguagem infantil. ‘A Bonequinha Preta’ é um livro atemporal, que encanta até mesmo os adultos. O livro tem uma poesia e um lado literário muito característico, que é o que faz com que ele seja um clássico”, conta Maria Lisboa.

A autora

A escritora, educadora, ex-vereadora e professora aposentada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Alaíde Lisboa, foi uma das grandes personalidades brasileiras nas áreas da educação e literatura infantil. Devido sua importância para a educação mineira, a educadora ganhou espaço de destaque na Magistra – Escola de Formação e Desenvolvimento Profissional de Educadores, em Belo Horizonte. Sua história ilustra a exposição ‘Educadoras de Minas’, iniciativa que, por meio de textos e fotografias, apresenta a trajetória de profissionais que colaboraram para o desenvolvimento do ensino no Estado.

 Nascida em 1904, na cidade de Lambari, onde passou a infância e a adolescência, a professora, integrante da Academia Mineira de Letras, Alaíde Lisboa, tornou-se, em 1950, a primeira vereadora da capital mineira. Tanto na infância em Lambari, onde estudou no Grupo Escolar Dr. João Bráulio Júnior, quanto na adolescência em Campanha (MG), Alaíde Lisboa revelava grande gosto pelo estudo.

Após anos de estudo, a educadora aproximou-se da UFMG, onde lecionou Didática Geral e Especial. Foi também diretora do Colégio de Aplicação da Universidade e vice-diretora da Faculdade de Educação (FaE), onde organizou o mestrado da área. Atuou como professora da pós-graduação na FaE e na Faculdade de Medicina, dedicando-se à disciplina Metodologia do ensino superior.

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