Professores Ana Lydia Santiago e Luciano Silva conduziram o debate, realizado na quarta-feira, com os educadores que participavam do congresso

Como fazer do diálogo entre escola, família e comunidade do entorno um instrumento de mudança na instituição de ensino? A questão foi o ponto alto da discussão da mesa redonda “Relação entre escola, família e comunidade: o diálogo como ferramenta para uma relação pedagógica civilizada”. A palestra foi ministrada pelos professores Ana Lydia Santiago e Luciano Silva, nesta quarta-feira (17-10), no congresso de Práticas Educacionais, evento realizado pela Magistra – A Escola de Formação e Desenvolvimento Profissional de Educadores de Minas Gerais.

Luciano Silva é professor adjunto do Departamento de Educação do Instituto de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e também é pesquisador das manifestações da indisciplina no ambiente escolar. O professor falou, durante a palestra, sobre a importância do diálogo para que dificuldades como a indisciplina ou atos de violência sejam evitados no ambiente escolar. “O diálogo, embora importante, não é fácil. A escola precisa entender a diferença entre a violência e a indisciplina. A violência é aquela que viola as regras sociais gerais, que atinge fisicamente, moralmente, psicologicamente aos sujeitos. A indisciplina é quando o aluno viola regras específicas daquele local, no caso, a escola. São atos diferentes que devem ser avaliados de maneira diferente”, declarou.

Relação da família com a escola foi tema de mesa redonda realizada no Congresso de Práticas Educacionais. Foto: Amanda Lelis/ACSSEE

O professor também tratou da relevância do diálogo para que a participação dos pais seja constante e traga, consequentemente, resultados positivos para o desenvolvimento do aluno. “Família e escola devem estar em constante diálogo. Essas iniciativas por parte da escola são extremamente importantes pois a falta delas causa um impacto direto no aprendizado dos alunos e até na saúde do professor. É muito importante que os gestores saibam dialogar com a diversidade cultural e social dos alunos e, em determinados momentos, eles devem até romper com certos discursos, que possam vir da família ou da própria equipe pedagógica. A família e a escola são parceiras na formação do aluno. Todos estamos envolvidos, todos temos responsabilidades, todos podemos gerar mudanças”, disse o professor.

Ana Lydia Santiago é professora do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e psicanalista. Sua linha de pesquisa une a Psicanálise e a Educação. A professora é parceira da Secretaria de Educação e de Saúde de Belo Horizonte no desenvolvimento de trabalhos que investigam as manifestação das dificuldades  escolares nos campos da psicanálise, da educação e da saúde mental.

Ana Lydia destacou que a escola é o segundo espaço social frequentado pela criança, sendo que o primeiro é o ambiente familiar. “É importante que a equipe da escola reconheça e saiba lidar com a criança que vai levar suas dificuldades, mal-entendidos, questões complicadas da família para o ambiente escolar. Cabe aos professores, de certa forma, interpretar essas situações. É muito importante que essa interpretação seja feita por eles pois, além da família, são eles que recebem os alunos diariamente e algumas vezes em tempo integral. A escola é o segundo espaço social dessas crianças e jovens”, afirmou.

A psicanalista também falou sobre a importância do trabalho conjunto entre equipe pedagógica, alunos e comunidade escolar e ressaltou que a escola deve incentivar o desenvolvimento e a valorização do saber dos alunos. “Trabalhando nas escolas, fui me interessando pelo saber dos jovens. Sobre o que podemos aprender com os alunos. Já realizei um trabalho com professores e tentamos fazer repercutir esses saberes no espaço educativo. É importante devolver para a escola o que aprendemos com as crianças, com os jovens, com os professores e também com a família”, afirmou.

Ana Lydia também apresentou dois momentos no desenvolvimento do aluno que podem gerar interpretações incorretas pela equipe da escola: as dificuldades do aprendizado causadas por fatores psicológicos e aquelas causadas por fatores educacionais. Cada um desses momentos exige uma atuação diferenciada do educador e, em alguns casos, pode ser importante buscar a ajuda de outros profissionais, por exemplo, da área da saúde. “É importante saber diferenciar quando o problema do aluno é clínico e quando é pedagógico para identificar as estratégias e as intervenções necessárias e atuar corretamente”, ressaltou.

Especialista ressaltou a importância de diferenciair violência e indisciplina. Foto: Amanda Lelis/ACSSEE

Inez Gervásio, que é especialista em educação básica na Escola Estadual José Castro de Araújo, de Poços de Caldas, contou que precisou avaliar a maneira que dialogava com as famílias dos alunos para que as ideias fossem compartilhadas durante as reuniões realizadas na escola. “Percebi em alguns momentos que a minha linguagem não era clara para os pais. A iniciativa de avaliar as nossas reuniões deu bons resultados, é uma habilidade que precisamos desenvolver”, declarou.

Carmem Lúcia Freitas de Castro, que é analista educacional na Magistra, tratou sobre a relação entre família, comunidade e escola na oficina que ministrou no Congresso, com o tema “Gestão Escolar”. Ela falou sobre a importância da escola em trabalhar a linguagem com foco naqueles que participam do diálogo. “Precisamos valorizar a relação com a comunidade escolar, traduzir o cotidiano da escola para o público externo. Precisamos de interlocuções diferenciadas, cuidado e carinho no tratamento. Precisamos traduzir o que aprendemos e conversamos aqui na Secretaria e na academia para a comunidade, deixando de lado os termos técnicos”, afirmou.