Implantado em 2006, Programa de Intervenção Pedagógica usa resultados de avaliações como referência para melhorar aprendizagem dos alunos


Planejamento é a palavra-chave na melhoria da qualidade da educação em Minas Gerais. Trabalhar com metas e resultados vem garantindo o aumento dos índices de qualidade, sobretudo nos anos iniciais do ensino fundamental. Uma das ações que alavancou os resultados nas avaliações externas do Programa de Avaliação da Alfabetização (Proalfa) é o Programa de Intervenção Pedagógica (PIP). Criado em 2006, o PIP usa os resultados das avaliações para traçar metas de avanço e garantir que toda criança esteja lendo e escrevendo até os oito anos de idade. E o PIP deu resultados: em 2006 apenas 48,6% das crianças estavam na faixa considerada recomendável de leitura e, no ano passado, esse índice chegou aos 86,2%. A meta da Secretaria de Estado de Educação (SEE) é de que, até 2014, 97% dos estudantes alcancem o nível recomendável de leitura até os oito anos de idade.

Professores têm apoio do PIP na EE Olímpia Resende, em Belo Horizonte. Foto: Renato CobucciSubir quase 40% na porcentagem de estudantes alfabetizados na rede estadual de ensino é fruto de um trabalho realizado no dia a dia das escolas. O PIP se apropria dos resultados das avaliações externas, como o Proalfa, e auxilia educadores das escolas na elaboração de estratégias para serem trabalhadas com os alunos dos anos iniciais do ensino fundamental. A partir desses dados, cada escola elabora um plano de ação para garantir o avanço nos índices. Esse plano faz uma análise dos resultados, lista os alunos que apresentaram mais dificuldade e traça estratégias para que esses estudantes consigam melhorar o desempenho.


Cada escola utiliza as ferramentas de que dispõe para elaborar estratégias de intervenção pedagógica. A escola que tem o projeto Escola de Tempo Integral (Proeti), por exemplo, pode encaminhar os estudantes com mais dificuldade para que no contraturno das aulas, eles realizem o reforço escolar. “Há também outras estratégias, como, trabalhar, em separado, com os alunos que estão com desempenho abaixo do recomendável. Assim eles têm a possibilidade de consolidar as capacidades básicas e prosseguir com seus companheiros de turma. Essa estratégia pode ser adotada tanto no turno regular, como no contraturno, com a participação de professores de apoio”, explica Maria Helena Brasileiro, diretora de Ensino Fundamental da SEE.


A intervenção é feita com a orientação da SEE e das Superintendências Regionais de Ensino (SREs). No Órgão Central, há uma equipe de 60 analistas trabalhando na coordenação do Programa. Além disso, cada uma das SREs conta com uma equipe regional que faz visitas periódicas às escolas, totalizando cerca de 1500 profissionais. Esses profissionais são analistas e inspetores educacionais, especialistas em alfabetização. “A equipe regional faz sugestões sobre o ensino na escola, propõe mudanças de estratégias didáticas, inserção de práticas pedagógicas e de atividades. Tudo para melhorar a aprendizagem dos alunos”, aponta Maria Helena Brasileiro.


Dia DA contação de histórias faz parte das atividades na EE Duque de Caxias, em Belo Horizonte. Foto: Marco Evangelista

Todas as escolas da rede estadual reservam dois dias do calendário escolar, chamados de ‘Dia D’, para refletir sobre seus resultados nas avaliações externas e internas. O primeiro deles é o ‘Toda a escola pode fazer a diferença’. Com o resultado do Proalfa em mãos, os educadores se reúnem, no mês de dezembro, para analisar a situação dos alunos e elaborar as estratégias para o ano seguinte. Neste momento, é avaliado o percentual de alunos que estão no nível recomendado e aqueles que precisam de intervenção para o desenvolvimento das competências e habilidades esperadas para seu nível de ensino.


“Ao final do 3º ano do ensino fundamental, por exemplo, os alunos devem saber ler com entonação e ritmo e entender o que estão lendo. Eles também devem compreender textos mais extensos, como notícias. Na Matemática, os estudantes devem compreender e utilizar o sistema de numeração, dominar os fatos de adição e subtração e realizar cálculos mentais com pequenos números”, afirma a superintendente de Desenvolvimento da Educação Infantil e Fundamental, Maria das Graças Pedrosa Bittencourt.


Com a conclusão dos anos iniciais do ensino fundamental o trabalho é voltado para que o aluno consiga ampliar suas competências e habilidades. “Os estudantes devem ter ampliado as capacidades de leitura e escrita, ou seja, devem ser capazes de ler, compreender, retirar informações contidas no texto e redigir com coerência, coesão, correção ortográfica e gramatical. Na Matemática, os estudantes também devem compreender os fatos fundamentais da multiplicação e divisão, além de resolver operações matemáticas mais complexas”, completa a superintendente.


Uma vez elaborado, o Plano de Intervenção Pedagógica é apresentado à comunidade escolar em um dia chamado de “Toda a comunidade participando”, momento no qual pais e responsáveis podem apresentar sugestões e propor ações. “Esta é uma oportunidade para que eles conheçam os resultados da escola, o desempenho de seus filhos e contribuam para o trabalho de melhoria do ensino”, avalia Ermelinda Bissatti Ricardo Pedrosa, coordenadora do PIP no Órgão Central.

Na EE Necésio Tavares, os alunos fazem a intepretação de notícias de jornais no 'Escola de Tempo Integral'. Foto: Hudson MenezesParceria em prol da educação

Para o desenvolvimento do trabalho de intervenção pedagógica junto ao professor, as equipes do PIP, central e regionais, fazem visitas periódicas às escolas. Os integrantes do Programa se reúnem com o diretor, os especialistas e os professores da escola para analisarem o desempenho dos alunos, conhecer o projeto pedagógico, além de propor estratégias que fortaleçam o trabalho do professor e a melhora no desempenho dos alunos.


Com o Plano traçado, é hora de colocá-lo em prática. Atividades lúdicas, projetos voltados para o desenvolvimento das áreas estratégicas, como leitura e operações básicas da Matemática, fazem parte do trabalho do professor. Os integrantes do PIP, responsáveis pelas escolas, servem de apoio aos professores, ao propor atividades que tornem o ensino na sala de aula cada vez mais eficiente.


Nos casos das chamadas escolas estratégicas, ou seja, aquelas que possuem alunos com desempenho abaixo do recomendável, o acompanhamento é mais frequente.  “Há escolas estratégicas, que a própria SEE define como especiais. Nessas escolas, as visitas são semanais”, explica a analista da SRE Metropolitana A, Liliana Souza Silveira. “Nós ajudamos o professor a identificar as dificuldades dos alunos e a elaborar estratégias pedagógicas diferenciadas que possibilitem o desenvolvimento das capacidades ainda não consolidadas”, completa.

Segunda fase do Programa

O Programa de Intervenção Pedagógica (PIP) é tido como um dos protagonistas do aumento de desempenho dos estudantes mineiros nos anos iniciais do ensino fundamental e o próximo passo da Secretaria de Estado Educação (SEE) é ampliar o projeto. Na segunda fase do Programa, a equipe do PIP, que já conta com mais 40 professores trabalhando no órgão central da SEE, em Belo Horizonte, vai atender a estudantes dos anos finais do ensino fundamental. A partir deste mês, tem início a formação das equipes regionais, que vão atuar nas 47 Superintendências Regionais de Ensino (SREs) e terão, ao todo, 480 educadores.

A tarefa desses profissionais é tomar como exemplo o trabalho feito nos anos iniciais e tornar os anos finais do ensino fundamental em Minas o melhor do país. A equipe do PIP passa a ter professores especialistas em todos os conteúdos, mas o foco do programa são as disciplinas de Português e Matemática. Na equipe central, por exemplo, há 8 especialistas para cada uma dessas áreas, enquanto em Geografia, História, Ciências, Educação Física, Língua Estrangeira e Arte contam com quatro professores cada. “Português e Matemática são a base para os outros conteúdos, se aluno dominar essas duas disciplinas ele terá muito mais chances de se sair bem nas outras. Por isso vamos priorizar esses conteúdos”, conta Maria Helena Brasileiro, diretora de Educação Básica da SEE.

Trabalhar com conteúdos diversos é um dos desafios do PIP nesta segunda fase. Afinal, ao contrário do que acontece nos anos iniciais do ensino fundamental, onde há um professor para todas as disciplinas, nos anos finais a equipe docente aumenta. Maria Helena Brasileiro ressalta que, mais do que trabalhar a dificuldade dos alunos, o PIP terá ainda a função de integrar professores de diversas disciplinas. “Para conseguir garantir o desenvolvimento dos alunos, a equipe de professores vai precisar trabalhar de forma interdisciplinar. Um professor de Artes, por exemplo, pode trabalhar um teatro e, para isso, reforçar conteúdos de Português com seus alunos”, explica.

Para descobrir quais os estudantes têm mais deficiências, a equipe do PIP vai se valer das avaliações Programa de Avaliação da Rede Pública de Educação Básica (Proeb), que avalia os estudantes em Português e Matemática no 5º e 9º anos do ensino fundamental. Maria Helena reforça, contudo, que analisar as necessidades dos estudantes passa também pela escola e pelo professor. “Podemos descobrir as deficiências também nas conversar com professores e a partir de avaliações feitas pelas próprias escolas”, afirma.