O professor de Física, Jair Gusmão, e a tradutora e intérprete de Libras, Zélia Mota, durante a aula para o 3ºH na Escola Estadual Mauricio Murgel. Foto: Franciele Xavier

O Dia Nacional da Educação de Surdos e o Dia Nacional da Língua Brasileira de Sinais (Libras) são comemorados nesta semana (dias 23 e 24) e para reforçar a importância dessas datas, nenhuma profissão melhor para ser representada que aquela que é capaz de ser a ponte entre o ouvinte e a pessoa surda: a de intérprete e tradutor(a) de Libras.

Na Escola Estadual Mauricio Murgel, em Belo Horizonte, uma das referências em Minas Gerais para educação de surdos, a presença da intérprete e tradutora de Libras, Zélia Angélica Silva da Mota, na sala do 3ºH do último ano do ensino médio, deixa os 10 alunos surdos tranquilos quanto ao aprendizado recebido. Eles sabem que todo o conteúdo que é passado verbalmente aos outros 23 colegas também chegará até eles.

“É um trabalho muito importante, porque a gente passa a ser o canal de transmissão do conhecimento. Fico muito feliz em ver que tem escolas que acolhem esse trabalho, que tem que ser desempenhado sempre em parceria com o professor, em sintonia com os alunos surdos e que exige a familiaridade com os conteúdos que são passados”, diz Zélia.

O professor de física, Jair Menezes Gusmão, é um dos profissionais da Escola Mauricio Murgel que trabalha em parceria com Zélia e faz questão de destacar a importância do trabalho dos intérpretes e tradutores. “Quando a gente atua acompanhado pelo intérprete não há dificuldade em atender o aluno surdo. Dou aula tranquilamente, passo conteúdo e esclareço dúvidas como se a turma fosse toda de ouvintes”, conta o professor.  

Ane Rocha Marotta, de 19 anos, é uma das alunas que recebem o apoio desses profissionais. “Eu me sinto muito feliz aqui. O professor está ali, o intérprete também, a convivência com os ouvintes é ótima e alguns já até sabem Libras, ou pelo menos um pouco dessa língua. Não me sinto diferente de ninguém aqui dento”, diz.

A estudante Ane Rocha Marotta:

A sensação de igualdade entre os alunos da sala de aula do 3ºH percebida tanto pelo professor quanto pela aluna é o reflexo de todo o ambiente escolar da Mauricio Murgel, onde prevalecem o respeito e a valorização das diversidades.

A diretora Sônia Marino, que atua no cargo há 14 anos, revela que entre os cerca de 1.700 estudantes, praticar a inclusão é natural. “Aqui isso acontece de maneira tão espontânea, que quando escutamos falar nisso é que percebemos que nossas praticas são inclusivas. É porque tudo ocorre rotineiramente e posso afirmar que aqui impera a aceitação das pessoas como elas são, não importando se surdas, cegas, cadeirantes, ouvintes ou de qualquer outro jeito. É um ambiente altamente respeitoso”, afirma.

Cursos de Libras

Além das 42 turmas de Ensino Médio nos três turnos, a escola oferece o Curso Básico de Libras, aberto a qualquer membro da comunidade escolar, e o Curso Profissionalizante de Libras. Esse último irá formar, no fim deste ano, 60 técnicos aptos para atuarem como tradutores, intérpretes e instrutores de Libras em toda a rede estadual de ensino.

No Curso Básico de Libras são inscritos alunos surdos que ainda não sabem a língua de sinais, estudantes que convivem com colegas surdos e querem aprender para se comunicar, pais e familiares de alunos surdos. Atualmente há 243 pessoas matriculadas e frequentes na primeira turma de 2019, que funciona em vários horários durante manhã, tarde e noite.

O professor dessa turma, João Elias do Amaral Júnior, que é surdo, reforça a importância da Lei Federal 10.436 de 24 de abril de 2002, que marcou uma importante conquista da comunidade surda por reconhecer a Libras como meio oficial de comunicação e prever a garantia dessa língua em instituições de serviços públicos. Ele acredita que a oferta do Curso de Libras melhora a acessibilidade tanto de surdos quanto de ouvintes por permitir a integração e a facilitação da comunicação.

“Acho muito importante disponibilizar esse aprendizado, principalmente para a comunidade surda, já que tem a Libras como a primeira língua. Esse curso facilita o contato, o entendimento, tanto em casa quanto na escola. Ainda temos muitos desafios pela frente em questão de acessibilidade, como em hospitais e órgãos da Justiça, onde ainda não há ou são poucas pessoas capacitadas para entender a Libras, mas ver esses cursos abertos ao público e ainda gratuitos me deixa muito feliz”, diz João Elias.

O professor João Elias durante dinâmica de grupo no Curso Básico de Libras oferecido gratuitamente na Escola Estadual Mauricio Murgel, em BH. Foto: Franciele Xavier

Política de inclusão e educação de surdos

A Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE) trabalha em toda a sua rede para que a oferta do ensino seja universal, inclusive para os estudantes com deficiência, transtorno global do desenvolvimento, altas habilidades/superdotação.

A inclusão na escola, prevista na legislação vigente, parte do princípio de que todos têm direito de acesso ao conhecimento sem nenhuma forma de discriminação, ou seja, nenhuma criança pode ter a sua matrícula negada em razão de sua deficiência ou qualquer outro motivo. A rede estadual de ensino mineira, em 2019, matriculou 1.317 alunos surdos, 1.772 com alguma deficiência auditiva e nove surdocegos, e a maior parte deles está incluída em escolas regulares inclusivas.

Para aprimorar o atendimento de estudantes surdos e capacitar os professores da rede, a SEE mantém os Centros de Capacitação de Profissionais de Educação e Atendimento às Pessoas com Surdez (CAS). O objetivo é trabalhar propostas para a educação de surdos por meio da formação continuada dos professores com a oferta de cursos de Língua Brasileira de Sinais (Libras) e de Língua Portuguesa como segunda língua para estudantes surdos. Nos CAS também são produzidos materiais didáticos acessíveis aos alunos surdos, como vídeos didáticos em libras, além da capacitação de professores de Atendimento Educacional Especializado (AEE).

A SEE mantém o funcionamento de cinco CAS, localizados nos municípios de Belo Horizonte, Montes Claros, Varginha, Diamantina e Uberaba. Eles funcionam anexos a alguma escola estadual que fica responsável pelas questões administrativas. Além deles, também existem dois Núcleos de Capacitação e Apoio Pedagógico às Escolas de Educação Básica nos municípios de Januária e Governador Valadares.

Além dos CAS, a Rede Estadual de Educação Profissional, da SEE, iniciou em 2018 a oferta do curso técnico em Tradução e Interpretação da Língua Brasileira de Sinais (TILS). Em todo o estado são seis escolas estaduais que ofertam gratuitamente o curso. Com duração de dois anos, a formação é oferecida nas escolas estaduais Mauricio Murgel e Francisco Sales, em Belo Horizonte; Dona Antônia Valadares, em Divinópolis; Nazle Jabur, em Passos; Quintiliano Jardim, em Uberaba; e Bueno Brandão, em Uberlândia.